
A notícia do dia é que, enfim, o governador Rafael Fonteles vai se reunir com o vice-governador Themístocles Filho para discutir a formação da chapa majoritária de 2026. A reunião foi anunciada, mas, curiosamente, ainda sem data. Seria essa indefinição um lapso de agenda ou um lapso de respeito?
O fato é que, mesmo com toda a disputa interna pelo cargo de vice já estampada na mídia, nos blogs, nas rádios e nas redes sociais — e, convenhamos, com o claro aval da Secretaria de Comunicação — o governador ainda não sentou à mesa com o seu atual vice. Isso mesmo. O homem que esteve com ele em todos os palanques, que segurou as pontas nos bastidores e emprestou ao jovem governador sua vasta credibilidade política... ainda está no escuro.
Themístocles Filho não sabe se continua na chapa. Não sabe para onde vai. Ou melhor, dizem por aí que poderia ser "rebaixado" à suplência de Júlio César ao Senado. Parece piada, mas é com isso que estão brincando.
E se estão brincando, é com fogo.
Porque não se trata de qualquer político. Estamos falando de Themístocles Sampaio Pereira Filho, homem público que trilhou o caminho da política com humildade e força. Começou como vereador de Teresina, foi deputado estadual por 35 anos e presidiu a Assembleia Legislativa por 18 deles — um feito que poucos, pouquíssimos, no Brasil ostentam. E mesmo com toda essa trajetória, é tratado, hoje, como se fosse um aliado de segunda linha, um quadro qualquer do interior, um sem voto. Um nome a ser empurrado para o canto do tabuleiro.
Tudo isso, enquanto setores do PT se engalfinham nos bastidores para emplacar uma chapa "puro-sangue", como gostam de dizer. Chapa petista da cabeça aos pés. Mas convenhamos: para impor uma chapa assim é preciso ter cacife. É necessário ter prestígio junto à população, respaldo nas urnas, confiança da opinião pública. Será que Rafael Fonteles, em seu primeiro mandato, já alcançou isso tudo?
E se conquistou, seria desonesto não reconhecer: não há um dedo de Themístocles Filho aí? Ou seriam dois? Três? Talvez uma mão inteira.
Rafael Fonteles pode ter talento e ambição. Mas ainda não tem a história. E o PT pode ter militância aguerrida e estrutura de campanha. Mas o que sobra em barulho, falta em contenção de vaidade. Quem já venceu sabe que a vitória se constrói com lealdade e pragmatismo. E é exatamente isso que o PT parece esquecer quando relega um aliado como Themístocles Filho a segundo plano.
É como se a memória política do partido tivesse um botão de delete: apaga o passado, ignora a composição de forças e finge que 2022 foi uma conquista solitária. Como se a vitória de Fonteles tivesse saído do laboratório de dados e planilhas da Fundação Perseu Abramo e não das alianças costuradas com esforço e paciência no interior do Piauí — onde Themístocles ainda é rei.
Felipe Sampaio, filho de Themístocles e deputado estadual, tenta colocar panos quentes. Diz que o pai está tranquilo, que a reunião vai acontecer, que o governador “sabe o que ele representa”. Mas a dúvida persiste: por que essa conversa ainda não aconteceu? O que impede o governador de fazer um gesto básico de consideração?
Aliás, se a reunião for mesmo acontecer, não será por gentileza. Será porque o desgaste já chegou aos quatro cantos da base. E o silêncio de Themístocles, que tem sido exemplar, começa a falar mais alto do que qualquer nota oficial.
A verdade é que Themístocles Filho é um patrimônio político do Piauí. É um homem de palavra. Um articulador nato. Um político de bastidor que construiu pontes onde muitos queriam abrir abismos. É reconhecido até pelos adversários como um conciliador — algo raro, hoje em dia. E está sendo tratado como uma peça descartável por aqueles que, paradoxalmente, devem parte de sua estabilidade a ele.
Se o governador Rafael Fonteles imagina que pode seguir para a reeleição descartando um vice como esse, talvez seja hora de rever seus cálculos. Porque a política, ao contrário da matemática, não permite excluir aliados sem alterar o resultado final.
E se a imagem do governo ainda respira — mesmo que por aparelhos — é porque alguém, lá atrás, garantiu oxigênio para o sistema funcionar.
E esse alguém tem nome: Themístocles Filho.
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