
Vira e mexe, a política piauiense nos brinda com mais um capítulo de "forçação de barra" institucionalizada, agora protagonizada pelo suposto lançamento de Vinícius Dias, filho do ministro e ex-governador Wellington Dias, como pré-candidato à Assembleia Legislativa do Piauí. O médico, cujo único feito político até agora é ser herdeiro de uma das famílias mais influentes do Estado, é apresentado como "renovação", "trunfo estratégico" e "fortalecimento do PT para 2026". Fortalece como? Com que base? Com que votos?
Fábio Novo, uma das principais vozes do partido, afirma com entusiasmo que Vinícius "nasceu dentro do PT". E é verdade. Cresceu nos bastidores da política, com pai vereador, deputado estadual, deputado federal, governador, e a mãe deputada estadual e depois federal — hoje, acomodada como conselheira do Tribunal de Contas do Estado. A pergunta que não quer calar é: isso é renovação política ou manutenção da velha lógica oligárquica que o PT dizia combater?
Vale lembrar: Wellington Dias chegou ao poder com um discurso contundente contra as oligarquias que dominavam o Piauí. Combatia a herança política, o favorecimento familiar, o nepotismo travestido de competência. Agora, o próprio partido empacota a candidatura de seu filho como um símbolo de continuidade. Não há como não perceber a ironia: as oligarquias dos outros eram um problema, mas a sua própria parece ser legítima, técnica, estratégica e “meritória”.
A eventual eleição de Vinícius Dias está longe de ser um feito democrático. Com o capital político herdado dos pais e o apoio das máquinas partidária e administrativa, o resultado pode até ser previsível. Mas o que se perde nesse processo é o valor do discurso, da coerência e da ética política.
A candidatura é legal. Vinícius tem todo o direito de disputar. A crítica aqui não é pessoal, é sistêmica. O que está em jogo é o modelo de poder que o PT defende no Piauí: uma renovação de fachada, feita à base do sobrenome e do apadrinhamento.
A pergunta que fica é: quando foi que o PT trocou o discurso de transformação pelo de acomodação? Será mesmo que renovar significa perpetuar os mesmos grupos no poder? O partido que já representou a esperança de milhares de piauienses agora se comporta como uma engrenagem das velhas práticas que dizia combater.
O caso Vinícius Dias simboliza muito mais que uma simples candidatura. Ele representa o dilema ético e político de um partido que, ao chegar ao poder, esqueceu os compromissos que o levaram até lá. O discurso de ética foi relativizado. A luta contra as oligarquias virou retórica vazia. E o futuro da política corre o risco de se resumir a dinastias travestidas de democracia.
Sim, Vinícius tem o direito de disputar. Mas o eleitor também tem o direito — e o dever — de questionar os bastidores dessa escolha. O que o Piauí precisa é de lideranças com legitimidade popular, não apenas com pedigree político.
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