
No templo de Seti I, em Abidos, no Egito, uma inscrição hieroglífica ganhou fama global ao ser batizada de “os hieróglifos do helicóptero”. Nela, alguns entusiastas de teorias alternativas veem claramente figuras semelhantes a um helicóptero, um avião e até o que pareceria um disco voador. A imagem circula na internet há décadas, sendo usada como suposta evidência de que o Antigo Egito conhecia tecnologias que só seriam desenvolvidas milênios depois.
Mas afinal, o que realmente estamos vendo?
A resposta dos egiptólogos e arqueólogos é simples e amplamente documentada. A inscrição é, na verdade, um caso clássico de “palimpsesto” - quando um texto ou imagem é sobreposto a outro anterior, resultando em formas confusas e ambíguas. A primeira inscrição foi feita durante o reinado de Seti I (1290-1279 a.C.), e mais tarde coberta com gesso e reesculpida no governo de seu filho Ramsés II (1279-1213 a.C.). Com a erosão do tempo, o gesso desapareceu e revelou traços sobrepostos de ambos os textos, criando formas que lembram máquinas modernas - um fenômeno puramente visual e acidental.
Mas os hieróglifos de Abidos não são os únicos símbolos apontados como evidência de tecnologia antiga. Outro exemplo frequentemente citado é o chamado “Pássaro de Saqqara” - uma pequena escultura de madeira datada de aproximadamente 200 a.C. e encontrada na tumba de Pa-di-Imen, em Saqqara.
A peça mede cerca de 14 cm de comprimento, possui asas, cauda vertical e uma fuselagem que lembra vagamente um planador ou avião. Teóricos do “paleocontato” e fãs de teorias alternativas alegam que ela seria uma miniatura de um avião moderno, o que levantaria a hipótese de que os egípcios detinham algum tipo de conhecimento sobre aerodinâmica ou teriam sido “inspirados” por visitantes de outro mundo.
A ciência, por sua vez, trata o artefato de Saqqara como uma representação simbólica de um pássaro - animal sagrado para diversas culturas egípcias. O formato da peça está mais alinhado com artefatos religiosos ou de culto do que com qualquer tentativa de engenharia aeronáutica. Além disso, testes de réplicas do objeto em túneis de vento não demonstraram nenhuma capacidade de voo ou estabilidade prática - ao contrário, ele cai ou gira sem controle.
Vale destacar ainda que a escultura carece de superfícies fundamentais para o voo, como flaps, estabilizadores horizontais ou propulsão - ou seja, sem os elementos que definem uma aeronave funcional.
Não há dúvidas de que essas imagens e objetos milenares despertam a imaginação. Elas nos desafiam a olhar com mais profundidade para o passado, mas também exigem um olhar cético, crítico e informado.
A ciência não ignora esses artefatos - ao contrário, busca compreendê-los no contexto cultural, simbólico e histórico em que foram criados. A ideia de que o Antigo Egito escondia segredos tecnológicos ou aeronáuticos ainda carece de qualquer evidência sólida. Não há registros técnicos, restos de estruturas mecânicas, nem qualquer tipo de documentação que fundamente tais teorias.
O que existe, de fato, é a projeção do nosso fascínio moderno sobre imagens do passado. E isso diz mais sobre nós do que sobre as civilizações que nos precederam.
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