
Em plena corrida eleitoral de 2026, a Controladoria-Geral da União (CGU) conseguiu produzir uma situação que deveria ser evitada a qualquer custo: um vídeo institucional sobre a segurança das urnas eletrônicas mostrou uma pessoa aparentemente digitando o número 13, legenda do Partido dos Trabalhadores (PT).
O vídeo foi publicado na quinta-feira (27) e permaneceu disponível até a sexta-feira (28), quando o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determinou sua retirada após identificar o que classificou como um “conteúdo equívoco”. A CGU também retirou o trecho e informou que decidiu reeditá-lo para evitar interpretações equivocadas.
A pergunta que fica é simples: como uma peça institucional relacionada justamente às eleições passa pela produção, edição, revisão e publicação de um órgão federal sem que ninguém perceba que a imagem utilizada poderia ser interpretada como propaganda política?
A explicação oficial é que não houve qualquer intenção de fazer referência a candidato, partido ou número eleitoral.
Segundo a CGU, a imagem utilizada veio de um banco público e a sequência completa mostraria uma mão pressionando os números de forma ilustrativa. O órgão afirmou que retirou o trecho justamente para impedir interpretações equivocadas.
A justificativa pode explicar a origem da imagem, mas não elimina o problema.
Em uma eleição, contexto importa.
O número 13 não é um número qualquer. É a legenda do PT, partido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição. Quando uma peça oficial sobre urnas mostra, ainda que por poucos segundos, uma mão pressionando justamente uma sequência que remete ao número de uma legenda partidária, o mínimo esperado de uma equipe de comunicação pública seria perceber o risco antes da publicação.
O episódio expõe uma questão maior: a necessidade de absoluta neutralidade e cuidado dos órgãos públicos durante o processo eleitoral.
Não basta dizer depois que não houve intenção.
Instituições que participam da fiscalização e da comunicação relacionada às eleições precisam trabalhar com um padrão de rigor muito superior ao de uma campanha publicitária comum. Cada imagem, palavra, número e enquadramento precisa ser revisado.
O próprio TSE fez questão de esclarecer que o vídeo foi produzido e publicado pela CGU, embora exista acordo de colaboração entre as instituições para divulgação de conteúdos informativos sobre as eleições. A Corte informou que, ao perceber o problema, determinou a retirada da peça de todos os perfis.
O vídeo tratava justamente da inspeção dos códigos-fonte das urnas eletrônicas, tema relacionado à transparência e à segurança do processo eleitoral. A ironia é que uma peça criada para reforçar a confiança nas eleições acabou produzindo exatamente o efeito contrário para parte do público.
Se a intenção era falar em transparência, o episódio deixa uma lição básica: transparência não combina com descuido.
Em um ambiente eleitoral polarizado, instituições públicas não podem trabalhar com a lógica do “ninguém vai interpretar dessa forma”. Precisam trabalhar com a lógica oposta: tudo será observado, tudo será questionado e tudo precisa ser tecnicamente justificável.
A CGU fez o correto ao retirar o trecho. O TSE também agiu para impedir que a peça continuasse circulando.
Mas a questão permanece:
por que foi preciso o vídeo ir ao ar, provocar repercussão e chegar ao conhecimento do TSE para que o problema fosse percebido?
É justamente esse tipo de falha que alimenta desconfiança em um período no qual as instituições deveriam fazer o máximo possível para preservar a credibilidade do processo eleitoral.
Não é necessário afirmar que houve uma operação deliberada para beneficiar qualquer candidato. Não há, até o momento, prova disso.
Mas também não se deve tratar o episódio como algo irrelevante.
Em uma democracia, a confiança nas instituições é construída com transparência, equilíbrio e, sobretudo, cuidado absoluto com a aparência de neutralidade.
E, desta vez, a CGU errou no básico: publicou um conteúdo que não deveria ter passado pelo controle editorial de um órgão público em plena eleição.
A imagem foi retirada. A dúvida, porém, ficou.
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