
Ronald Reagan dizia que "o sucesso de um programa social deve ser medido pelo número de pessoas que deixam de precisar dele". No Brasil, seguimos na contramão: quanto mais gente entra, mais os políticos comemoram. E o que deveria ser trampolim virou cama de rede. No Piauí, por exemplo, o Bolsa Família segue sendo o maior e mais eficiente cabo eleitoral.
Segundo novo estudo da Confederação Nacional de Municípios - CNM, mais de 47 mil pessoas estão na fila de espera pelo benefício no Estado, o que representa 33,1 mil famílias aptas, mas ainda ignoradas pelo sistema. Enquanto isso, governantes como Rafael Fonteles desfilam mundo afora com comitivas, discursos e projetos, mas o chão rachado do sertão ainda não viu um centavo de investimento estrangeiro.
Não é pouco: o Piauí ocupa a sétima posição no ranking nacional de dependência do Bolsa Família, com 45,4% da população recebendo o benefício. Isso o coloca à frente de Estados como Maranhão, Bahia e Ceará onde o número de miseráveis dependentes do BF é bem maior. Mas, apesar da dependência, a fila só cresce. E a dúvida persiste: como o Estado que mais deu votos proporcionalmente ao presidente Lula ainda amarga a exclusão de quase 50 mil pessoas do principal programa social do país?
A resposta pode estar no modelo perverso de dependência fabricado ao longo de anos: quanto mais o cidadão depende do Estado, mais vulnerável está à chantagem política. Assistência vira moeda de troca. Auxílio vira cabresto moderno.
O mais irônico é que o Piauí tem hoje um ministro no comando da pasta da Assistência Social, Wellington Dias, justamente o ex-governador que consolidou o Estado como campeão em dependência federal. Coincidência? Difícil acreditar.
Pior: o corte de R$ 9,5 bilhões no orçamento do Bolsa Família para 2025, segundo a CNM, deve agravar ainda mais a situação. O atendimento integral da fila nacional exigiria R$ 15,5 bilhões a mais por ano. Mas o que se vê é o contrário: menos dinheiro, menos vagas, mais excluídos.
Além disso, a redução no valor repassado por cadastro às prefeituras (de R$ 4,00 para R$ 3,25 via IGD-PBF) compromete a gestão local e a triagem dos beneficiários. Ou seja, a ponta da cadeia está sendo desmantelada enquanto Brasília finge que tudo vai bem.
No interior do Piauí, empresários rurais enfrentam outra realidade: falta de mão de obra. E não porque não há gente disponível, mas porque quem se registra perde o benefício. Resultado: crescimento da informalidade e do “bico”, que complementa o que o cartão do governo não cobre. Um exército de trabalhadores fantasmas que não entram nas estatísticas do desemprego.
E aí entra o ponto mais delicado: o impacto cultural e psicológico. A frase imortal de Euclides da Cunha - “o sertanejo é, antes de tudo, um forte” - parece ter virado um eco distante. O que se vê é um povo sufocado pela dependência, desestimulado a produzir, incentivado a apenas sobreviver - e não a prosperar.
A crítica não é ao amparo social em si - se o povo passa fome, precisa comer, o programa é necessário e urgente. A crítica é à falta de saída, à manutenção "ad eternum" da pobreza como estratégia de poder e à naturalização de um sistema que se vangloria por manter a miséria em estado crônico. O nome disso não é política pública: é política de manutenção do curral eleitoral.
E enquanto os números crescem, o país segue girando em círculos, comemorando a inclusão na fila - e esquecendo que o verdadeiro sucesso seria não ter mais fila nenhuma.
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