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Política CABO ELEITORAL

Bolsa Família: da tábua de salvação à âncora da miséria

Piauí tem mais de 47 mil pessoas na fila do Bolsa Família, mas segue produzindo eleitores fiéis e mão de obra informal

26/05/2025 às 06h00
Por: Douglas Ferreira
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Bolsa Família: da tábua de salvação à âncora da miséria

Ronald Reagan dizia que "o sucesso de um programa social deve ser medido pelo número de pessoas que deixam de precisar dele". No Brasil, seguimos na contramão: quanto mais gente entra, mais os políticos comemoram. E o que deveria ser trampolim virou cama de rede. No Piauí, por exemplo, o Bolsa Família segue sendo o maior e mais eficiente cabo eleitoral.

Segundo novo estudo da Confederação Nacional de Municípios - CNM, mais de 47 mil pessoas estão na fila de espera pelo benefício no Estado, o que representa 33,1 mil famílias aptas, mas ainda ignoradas pelo sistema. Enquanto isso, governantes como Rafael Fonteles desfilam mundo afora com comitivas, discursos e projetos, mas o chão rachado do sertão ainda não viu um centavo de investimento estrangeiro.

Não é pouco: o Piauí ocupa a sétima posição no ranking nacional de dependência do Bolsa Família, com 45,4% da população recebendo o benefício. Isso o coloca à frente de Estados como Maranhão, Bahia e Ceará onde o número de miseráveis dependentes do BF é bem maior. Mas, apesar da dependência, a fila só cresce. E a dúvida persiste: como o Estado que mais deu votos proporcionalmente ao presidente Lula ainda amarga a exclusão de quase 50 mil pessoas do principal programa social do país?

A resposta pode estar no modelo perverso de dependência fabricado ao longo de anos: quanto mais o cidadão depende do Estado, mais vulnerável está à chantagem política. Assistência vira moeda de troca. Auxílio vira cabresto moderno.

O mais irônico é que o Piauí tem hoje um ministro no comando da pasta da Assistência Social, Wellington Dias, justamente o ex-governador que consolidou o Estado como campeão em dependência federal. Coincidência? Difícil acreditar.

Pior: o corte de R$ 9,5 bilhões no orçamento do Bolsa Família para 2025, segundo a CNM, deve agravar ainda mais a situação. O atendimento integral da fila nacional exigiria R$ 15,5 bilhões a mais por ano. Mas o que se vê é o contrário: menos dinheiro, menos vagas, mais excluídos.

Além disso, a redução no valor repassado por cadastro às prefeituras (de R$ 4,00 para R$ 3,25 via IGD-PBF) compromete a gestão local e a triagem dos beneficiários. Ou seja, a ponta da cadeia está sendo desmantelada enquanto Brasília finge que tudo vai bem.

No interior do Piauí, empresários rurais enfrentam outra realidade: falta de mão de obra. E não porque não há gente disponível, mas porque quem se registra perde o benefício. Resultado: crescimento da informalidade e do “bico”, que complementa o que o cartão do governo não cobre. Um exército de trabalhadores fantasmas que não entram nas estatísticas do desemprego.

E aí entra o ponto mais delicado: o impacto cultural e psicológico. A frase imortal de Euclides da Cunha - o sertanejo é, antes de tudo, um forte” - parece ter virado um eco distante. O que se vê é um povo sufocado pela dependência, desestimulado a produzir, incentivado a apenas sobreviver - e não a prosperar.

A crítica não é ao amparo social em si - se o povo passa fome, precisa comer, o programa é necessário e urgente. A crítica é à falta de saída, à manutenção "ad eternum" da pobreza como estratégia de poder e à naturalização de um sistema que se vangloria por manter a miséria em estado crônico. O nome disso não é política pública: é política de manutenção do curral eleitoral.

E enquanto os números crescem, o país segue girando em círculos, comemorando a inclusão na fila - e esquecendo que o verdadeiro sucesso seria não ter mais fila nenhuma.

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A NOTÍCIA E O FATO
A NOTÍCIA E O FATO
Sobre Douglas Ferreira é multimídia. Além de jornalista, é bacharel em Direito. Foi repórter da TV Clube, afiliada da Rede Globo, por 10 anos e, em Caxias, no Maranhão, apresentou o programa “Fala Caxias”. Fundou e dirigiu por seis anos a Folha do Cocais. Foi secretário de Comunicação da Prefeitura de Caxias e retornou a Teresina como âncora da TV Meio Norte. Por 20 anos, reportou e apresentou na TV Antena 10, afiliada da Record. Também foi assessor de imprensa do Tribunal de Justiça do Piauí e passou por rádios e pelos maiores portais do Estado. Sua vida é o jornalismo. No Sistema Move de Comunicação, foi editor do Portal Move Notícias e apresentador do Business Cast, do canal movetvweb no YouTube. Agora, está à frente do Gazeta Hora1.
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