
Desde que passou a acompanhar o presidente Lula em agendas internacionais, Rosângela “Janja” da Silva tem chamado atenção não apenas pelo protagonismo incomum para uma primeira-dama, mas sobretudo pelos altos custos que suas viagens impõem aos cofres públicos. Em muitas ocasiões, ela embarcou com uma semana de antecedência dos compromissos presidenciais, ocupando aviões da Força Aérea Brasileira com capacidade para mais de 200 passageiros e gerando despesas de hospedagem, deslocamento e logística que, estimativas não oficiais sugerem, chegam a milhões de reais.
O apelido, logo cunhado nos corredores de Brasília e nas redes sociais, resume o fenômeno: um verdadeiro festival de luxo às custas do erário. Inspirada, dizem, nos exageros da viúva Imelda Marcos, ex-primeira-dama das Filipinas - fomosa pelo exagero fútil - Janja rompeu o padrão discreto de suas antecessoras - e criou uma agenda pessoal de turismo diplomático que engloba Japão, Vietnã, França, Itália, Rússia e muito mais. Em Moscou, por exemplo, desembarcou cinco dias antes do presidente, gerando críticas por não estar prevista na agenda oficial e por conduzir conversas paralelas com autoridades locais. Muitos questionam também os excessos de bagagem na ida e na volta.
Cansados de ver o dinheiro público escorrer - pelo ralo - sem prestação de contas, o vereador Guilherme Kilter (Novo/PR) e o advogado Jeffrey Chiquini ajuizaram uma ação popular junto à 9ª Vara Federal Cível da SJDF. Em decisão publicada em 18 de maio, o juiz Leonardo Tavares Saraiva concedeu 20 dias para que o governo federal e a própria Janja apresentem documentos detalhando custos e justificativas do uso de aviões da FAB, cartões corporativos e diárias. O pedido de liminar para suspender imediatamente as viagens foi rejeitado por falta de comprovação preliminar de ilegalidade, mas o magistrado destacou que a legalidade das decisões administrativas será aferida com o contraditório e ampla defesa antes de qualquer condenação.
No centro do debate estão princípios constitucionais caros à gestão pública: legalidade, moralidade, impessoalidade e eficiência. Para os autores da ação, Janja não ocupa cargo eletivo nem tem vínculo formal com o serviço público, e o gastança recorrente fere diretamente esses valores. Até agora, o Palácio do Planalto vem resistindo a divulgar planilhas de custo ou demonstrativos de viagem, alegando tratar-se de decisões discricionárias do Cerimonial. O tribunal, no entanto, deixa claro que nenhuma despesa pública está acima do escrutínio judicial.
Defensores de Janja argumentam que sua “obsessão” por cultura e moda ajuda a criar pontes informais em missões exteriores, agregando valor “soft power” à diplomacia brasileira. Críticos, porém, veem apenas ostentação e desconexão com a realidade socioeconômica nacional. A pergunta que impera é se esse investimento em imagem - com gastos que ainda precisam ser detalhados - realmente traz retornos tangíveis para o Brasil ou apenas alimenta o espetáculo midiático de um governo que já enfrenta desgaste em áreas como emprego e segurança.
Com prazo até 7 de junho para apresentar as explicações requisitadas, Janja e sua assessoria terão de decidir se abrem os cofres do cerimonial ou se mantêm sigilo, correndo o risco de fortalecer a percepção de falta de transparência. Enquanto a sociedade aguarda os números oficiais, fica o alerta: em tempos de austeridade e desafios econômicos, nenhuma autoridade pode escapar ao escrutínio público, por mais “rainha consorte” que se julgue.









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