
Nos bastidores da política piauiense, a movimentação é sutil, mas perceptível. Vinícius Ribeiro Dias, filho do senador Wellington Dias (PT) e da conselheira do Tribunal de Contas do Estado, Rejane Dias, tem sido sondado como possível nome para ingressar na política partidária. O silêncio desconfortável do senador e o histórico da família aumentam a suspeita de que a negativa é apenas um passo inicial do velho roteiro de negação, naturalização e anúncio.
Wellington Dias ascendeu politicamente nos anos 2000 com o discurso de combate às oligarquias que historicamente dominaram o Piauí. Mas não demorou muito para o projeto de poder se alinhar ao que antes combatia. E com mais zelo.
Primeiro, a esposa Rejane Dias, eleita deputada estadual, depois federal. Mais recentemente, contemplada com uma cadeira no Tribunal de Contas do Estado - prática consagrada por famílias tradicionais, e agora plenamente assimilada pela esquerda no poder.
A entrada do filho na política, portanto, segue o roteiro familiar: rejeição inicial, normalização midiática e, por fim, filiação e candidatura. A única surpresa seria se não acontecesse.
A figura de Vinícius Dias, embora distante dos microfones da política, já figurou nas páginas do noticiário. Em 2015, ele foi protagonista de um escândalo envolvendo uso indevido de dinheiro público.
Durante o governo de seu pai, viajou com a então namorada para a praia de Barra Grande, no litoral piauiense, utilizando aeronave contratada com recursos do Estado e se hospedando em pousadas com diárias pagas pelo erário. O caso foi parar na Justiça.
Em sentença de outubro de 2021, o juiz João Gabriel Furtado Batista, da 2ª Vara dos Feitos da Fazenda Pública de Teresina, condenou Vinícius a devolver R$ 17.267,00 aos cofres públicos, por considerar a viagem "ilegal, imoral e caracterizada por desvio de finalidade".
A decisão foi clara: não se tratava de missão oficial, nem o governador estava presente. Era uma viagem de lazer, bancada com recursos do povo. Um retrato fiel do problema crônico que assombra o serviço público: a confusão entre o que é público e o que é pessoal.
Vinícius é médico - mais um “doutor” em uma política já saturada de nomes com jalecos, mas sem projetos. A medicina, em muitos casos, virou trampolim político, símbolo de prestígio e porta de entrada para o poder municipal e estadual. No Piauí, o fenômeno é massivo.
Mas como mostram tantos exemplos, o título de “doutor” pode enfeitar santinho, mas não qualifica ninguém para o exercício da política pública. Quando o sobrenome fala mais alto que a trajetória, o risco é a repetição de vícios antigos com uma nova fachada.
A possível candidatura de Vinícius Dias levanta questões importantes. Não apenas sobre nepotismo ou sobre o uso do poder para perpetuar dinastias, mas sobre o verdadeiro alcance da crítica à velha política - aquela que tantos prometeram combater, mas que segue viva, agora com novos sobrenomes e bandeiras.
A negativa de Wellington Dias, por enquanto, segue a cartilha da dissimulação estratégica. Mas quem conhece os bastidores da política piauiense sabe: quando começam as especulações, é porque o terreno já está sendo preparado.
O futuro dirá se Vinícius Dias entra para a política para renovar ou apenas para garantir que, mesmo sob discursos progressistas, a hereditariedade continue sendo o único partido que nunca perde eleição no Piauí.
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