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Política GESTÃO DO CAOS

O legado de lama: como Dr. Pessoa entregou Teresina ao caos administrativo e à pilhagem institucional

Prometendo simplicidade e humanismo, o ex-prefeito deixou uma cidade marcada por escândalos, omissão e desgoverno - com mais de 3 mil processos no TCE, fraudes em série e uma máquina pública tomada pela corrupção descontrolada

30/04/2025 às 14h17 Atualizada em 30/04/2025 às 19h28
Por: Douglas Ferreira
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Dr. Pessoa deixou as rédeas frouxas e auxiliares meteram a mão - Foto: Reprodução
Dr. Pessoa deixou as rédeas frouxas e auxiliares meteram a mão - Foto: Reprodução

A cidade de Teresina assiste, atônita, ao desmonte moral e institucional da gestão do ex-prefeito José Pessoa Leal - o popular “Dr. Pessoa” - um médico que chegou à prefeitura prometendo humanismo e simplicidade, mas saiu deixando rastros de desordem, conivência e um escândalo administrativo sem precedentes. O volume de denúncias que emergem da ex-administração municipal é tão grande quanto grave: mais de 3.300 processos enviados ao Tribunal de Contas do Estado, cancelamento ilegal de 2.215 multas de trânsito, prejuízos que passam de meio milhão de reais e uma estrutura de corrupção que parecia operar em modo automático por todos os cantos da máquina pública.

Dr. Pessoa talvez não seja um corrupto clássico - desses que articulam, ordenam e lucram diretamente com a roubalheira. Mas é, inegavelmente, o exemplo perfeito do que acontece quando o poder se deita com a ingenuidade, se embriaga de vaidade e é governado pelo desprezo técnico e pela omissão administrativa. A corrupção não se limitou a uma secretaria específica. Ela escoou da Saúde à Educação, da Strans à Comunicação, como um rio de podridão correndo por dentro da prefeitura, sem contenção, sem comando, sem vergonha.

Um dos erros mais custosos e silenciosos da gestão foi a entrega de metade da prefeitura a vereadores. Para garantir governabilidade e manter maioria na Câmara, Dr. Pessoa loteou pastas estratégicas como se repartisse espólios de guerra. Cada edil com sua secretaria, seus contratos, seus indicados e - como se vê agora - sua fatia de poder e influência. Enquanto os parlamentares usufruíam do bônus político e administrativo de controlar áreas vitais, o ônus da tragédia recaiu por completo sobre o prefeito, que agora colhe sozinho o fruto de ter terceirizado a ética e a responsabilidade.

Foi nesse arranjo promíscuo que muitos vereadores se refestelaram na máquina pública, indicando aliados, manipulando estruturas e tratando o orçamento municipal como ferramenta de barganha política. A autonomia das pastas virou fachada; o controle, ficção. E Dr. Pessoa, ao invés de impor limites, preferiu assistir de longe - talvez por medo, talvez por conveniência.

A verdade é que a gestão de Dr. Pessoa não foi apenas tecnicamente incompetente - ela foi moralmente permissiva. Assessores enriqueceram do dia para a noite, servidores terceirizados arquivaram milhares de multas, empresas parceiras da prefeitura foram “premiadas” com cancelamentos de infrações e ninguém pareceu se importar. Enquanto a população enfrentava buracos, caos na saúde e escolas sem estrutura, os bastidores do poder viravam uma feira de interesses pessoais. O erário municipal virou terra de ninguém.

O relatório da comissão da Strans é revelador: mais de 2 mil infrações de trânsito canceladas, boa parte fora do expediente e com processos inexistentes. Um único servidor terceirizado arquivou 1.628 multas, quase R$ 370 mil em prejuízo, numa farra que envolveu servidores públicos, empresários e até empresas beneficiadas duplamente - nos contratos com a prefeitura e na isenção de responsabilidade no trânsito. Um verdadeiro “apagão ético” que compromete não só os cofres públicos, mas a credibilidade das instituições municipais.

Pior: todo esse esquema pode ter funcionado porque alguém fechou os olhos. A pergunta que grita é: por que Dr. Pessoa, diante de tantos sinais de alerta, não agiu? Por que ignorou avisos, não instaurou sindicâncias, não auditou suas pastas? Faltou coragem, competência ou sobrou conivência?

O ex-prefeito ainda se esconde no silêncio. Não quis comentar o caso ao GP1. Talvez porque tenha percebido que já não há muito o que dizer. A história começa a julgá-lo não apenas como um gestor fraco, mas como um facilitador involuntário da pilhagem dos cofres públicos de Teresina. Se não lucrou com a corrupção, foi, no mínimo, cúmplice pela omissão.

E agora, o que resta?

Resta ao Ministério Público e à Justiça fazer o que o ex-prefeito não fez: investigar, punir, reaver o que for possível dos recursos desviados e mostrar que Teresina não será terra de saque institucional. Não é fácil, mas também não é impossível. É como dizem os americanos: "siga o dinheiro". Resta também aos teresinenses refletirem sobre o voto que deram a um homem que se dizia do povo, mas permitiu que o povo fosse traído.

Porque, como já dizia o ditado: pior que um corrupto, é um ingênuo no poder. Ele não rouba com as mãos, mas abre as portas para quem rouba com as duas.

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A NOTÍCIA E O FATO
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Sobre Douglas Ferreira é multimídia. Além de jornalista, é bacharel em Direito. Foi repórter da TV Clube, afiliada da Rede Globo, por 10 anos e, em Caxias, no Maranhão, apresentou o programa “Fala Caxias”. Fundou e dirigiu por seis anos a Folha do Cocais. Foi secretário de Comunicação da Prefeitura de Caxias e retornou a Teresina como âncora da TV Meio Norte. Por 20 anos, reportou e apresentou na TV Antena 10, afiliada da Record. Também foi assessor de imprensa do Tribunal de Justiça do Piauí e passou por rádios e pelos maiores portais do Estado. Sua vida é o jornalismo. No Sistema Move de Comunicação, foi editor do Portal Move Notícias e apresentador do Business Cast, do canal movetvweb no YouTube. Agora, está à frente do Gazeta Hora1.
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