
O empresário José Severo Lima, conhecido nos bastidores do crime como "Severo Turismo", foi oficialmente transformado em réu pela Justiça do Piauí sob acusações pesadíssimas: tráfico interestadual de drogas, ligação direta com o Primeiro Comando da Capital (PCC), porte ilegal de arma, receptação, lavagem de dinheiro e formação de organização criminosa armada. O processo tramita na Vara de Delitos de Organização Criminosa e escancara a promíscua conexão entre negócios legais e o crime organizado em municípios do interior do estado.
Severo é dono da Transcastelo, empresa de ônibus que até recentemente operava rotas entre o Piauí e São Paulo. Só que, segundo a investigação da Superintendência de Operações Integradas da Secretaria de Segurança Pública (SOI), a Transcastelo não levava apenas passageiros: servia como correio de entorpecentes. Documentos, escutas e mensagens extraídas de celulares dos investigados revelam que a empresa era o principal canal logístico de uma rede de tráfico financiada e comandada diretamente por Severo, com ramificações no Piauí e no reduto do PCC em Paraisópolis, zona sul de São Paulo.
A denúncia do Ministério Público, aceita pelo juiz Thiago Carvalho Martins em 10 de abril, também atinge a esposa de Severo, Ivane Luiza Campos Lima, a irmã Maria Naylane Severo Lima, além de funcionários e cúmplices diretos: Jonathan Brendo Vieira Quaresma Vasconcelos (o "Currincho"), Jardel de Oliveira Tavares e José Luiz Neto. Eles operavam como o núcleo de confiança do empresário — um misto de contadores, motoristas e "disciplinas" da facção. O grupo virou réu por associação ao tráfico e, em alguns casos, também por lavagem de dinheiro e homicídio.
A engrenagem era bem montada: os ônibus da Transcastelo saíam de São Paulo com cargas disfarçadas entre encomendas comuns, geralmente escondidas em caixas térmicas de isopor. A cada remessa, dezenas ou centenas de quilos de maconha, cocaína e skunk abasteciam Castelo do Piauí e cidades vizinhas. A movimentação era constante, e em uma única remessa Severo teria enviado cerca de 400 kg de entorpecentes para o interior piauiense.
O esquema desmoronou após um episódio cinematográfico em julho de 2024: um caminhão da Transcastelo, vindo de São Paulo, foi interceptado por criminosos armados nas proximidades do Posto Bezerra, em Castelo do Piauí, e incendiado. No meio da fumaça, policiais encontraram dezenas de quilos de maconha escondidos entre pacotes de encomendas. O ataque, inicialmente tratado como sabotagem, revelou-se uma emboscada interna — um acerto de contas dentro do tráfico.
O alvo do atentado era Alerjanse Soares Araújo, pego em flagrante com a droga. O autor do atentado: Jonathan Brendo, o “Currincho”, considerado o "disciplina" da célula do PCC em Castelo e afilhado direto de Severo. O motivo: a carga não era de Severo, mas sim de concorrentes. A facção mandou o recado com fogo.
Quando a polícia prendeu Currincho, em setembro, apreendeu com ele um celular cujo chip estava registrado em nome do próprio José Severo, com endereço em Paraisópolis. No aparelho, estavam centenas de mensagens e comprovantes bancários: remessas de dinheiro, pagamento de boletos, compra de materiais para acondicionamento das drogas, tudo com envolvimento direto do empresário. Pior: as transações eram disfarçadas como “emissão de passagens”, numa tentativa amadora de dar verniz legal às operações do tráfico.
Uma conversa especialmente comprometedora mostrava Severo pedindo vídeos da droga para enviá-los a compradores, garantindo a “qualidade do produto”. O conteúdo reforça que ele não apenas financiava, mas também gerenciava pessoalmente a cadeia de distribuição.
A prisão de José Severo ocorreu às vésperas da eleição municipal de 2024. Ele já havia demonstrado interesse em disputar influência política em Castelo do Piauí, e segundo denúncias, usou dinheiro e ameaças armadas para cooptar votos. No dia 5 de outubro, foi flagrado com R$ 15,4 mil em espécie e uma pistola roubada de uma empresa de segurança paulista.
Preso em flagrante, Severo alegou inocência. Disse que sua empresa se limitava ao transporte de passageiros e negou qualquer relação com o PCC, com Currincho ou com as cargas ilícitas encontradas nos ônibus da Transcastelo — embora sua ficha criminal e as provas em juízo apontem o contrário.
Empresário com raízes em Castelo do Piauí, José Severo Lima construiu a imagem de empreendedor bem-sucedido no ramo de transportes. Mas nas sombras, sua folha corrida inclui tráfico, receptação, envolvimento com facções e agora, segundo o Ministério Público, uso eleitoral do crime para fortalecer seu poder na cidade.
Além das acusações que pesam sobre ele, a polícia o considera responsável por comandar execuções e punições internas no tráfico. A esposa, a irmã e funcionários de longa data da empresa agiam como peças-chave da organização criminosa.
Hoje, com Severo preso, a grande dúvida que paira sobre Castelo do Piauí é: quem assumiu o trono do tráfico deixado por ele? E por quanto tempo sua rede continuará operando, ainda que acéfala?
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