Domingo, 28 de Junho de 2026
29°

Tempo nublado

Teresina, PI

Justiça RESPOSTA FALACIOSA

O erro estratégico de Barroso: quando o remendo é pior que o soneto

Ao tentar rebater críticas da The Economist, Barroso expõe as falácias de sua própria defesa, reforça acusações de ativismo judicial e agrava a crise de credibilidade do Supremo Tribunal Federal.

26/04/2025 às 11h47
Por: Douglas Ferreira
Compartilhe:
Ministro Luís Roberto Barroso, presidente do STF - Foto: Reprodução
Ministro Luís Roberto Barroso, presidente do STF - Foto: Reprodução

A resposta do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Luís Roberto Barroso, à revista The Economist não apenas fracassou em defender a instituição: agravou, de forma inequívoca, as acusações que buscava negar. Em editorial incisivo, o Estadão foi direto: a nota do ministro está “repleta de falácias”, misturando diversionismos, sofismas e inverdades. Para o jornal, Barroso teria feito melhor se tivesse optado pelo silêncio - um conselho raro de se ver dirigido a um chefe de Poder no Brasil, mas que reflete o tamanho do desgaste institucional em curso.

A The Economist não fez meras ilações superficiais: apontou de maneira cirúrgica a crescente hipertrofia do STF no cenário político nacional. Destacou, em especial, o preocupante ativismo judicial, as intervenções explícitas em redes sociais, a censura a opositores políticos e a manipulação das regras constitucionais para julgar casos fora da sua competência originária. Um retrato desconfortável para uma Corte que deveria ser a guardiã da Constituição, mas que vem se notabilizando por dobrá-la conforme interesses de ocasião.

A crítica mais contundente da revista focou dois pontos: a derrubada arbitrária de contas de bolsonaristas na plataforma X (antigo Twitter), sob ordens do ministro Alexandre de Moraes - o que configura censura explícita - e a condução dos processos relativos ao 8 de janeiro no âmbito do próprio STF, quando, pela lógica constitucional, essas ações deveriam tramitar na primeira instância, já que a maioria dos réus não detém foro especial.

Barroso tentou desmentir as acusações com uma retórica que soou mais como confissão: afirmou que houve apenas “remoção de conteúdo ilegal” - como se censura deixasse de sê-lo por mera troca de palavras - e defendeu a competência do STF, mesmo diante da flagrante violação da regra do foro por prerrogativa de função. No afã de proteger a imagem do tribunal, Barroso caiu em pelo menos três falácias graves: a falácia da redefinição (chamar censura de remoção), a falácia do espantalho (transformar críticas legítimas em ameaças golpistas) e a falácia do falso dilema (sugerir que ou se apoia incondicionalmente o STF, ou se ameaça a democracia).

O Estadão destacou ainda que a resposta de Barroso usou artifícios retóricos para desviar do conteúdo factual das críticas, recorrendo a adjetivações vazias e apelos emocionais. Ao invés de enfrentar as denúncias com argumentos sólidos e dados objetivos, preferiu o caminho da vitimização institucional, reforçando a percepção de que hoje o STF é incapaz de autocrítica - e pior, hostil à própria ideia de fiscalização pública.

Conclusão

O editorial do Estadão é contundente porque capta o essencial: ao rebater a crítica com falácias, Barroso não apenas falhou em proteger a imagem do Supremo, mas consolidou a impressão de que o tribunal abandonou a neutralidade para se tornar um ator político engajado. A tentativa de desmoralizar a The Economist apenas evidenciou o desconforto interno diante da perda crescente de legitimidade.

Em tempos de desconfiança institucional aguda, quando a independência do Judiciário deveria ser reforçada por gestos de transparência, prudência e autocontenção, Barroso escolheu a estratégia mais perigosa: transformar o STF em vítima de uma narrativa fantasiosa, enquanto desdenha críticas consistentes feitas por observadores internacionais respeitados. Nesse erro de cálculo, o presidente do Supremo não só ratificou tudo o que pretendia negar, como também rebaixou ainda mais o prestígio da instituição que jurou defender.

Na política e na Justiça, muitas vezes, a sabedoria não está em falar - mas em saber quando calar. Luís Roberto Barroso, ao responder mal, falou demais. E o preço dessa escolha é pago não apenas por ele, mas por toda a credibilidade da mais alta Corte brasileira.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários