
A morte do Papa Francisco desencadeou um novo capítulo na história da Igreja Católica. Com a Sé Vacante e a cadeira de São Pedro desocupada, o Vaticano se recolhe em oração e silêncio, enquanto os cardeais se preparam para um dos momentos mais solenes e decisivos da Igreja: o conclave que elegerá o próximo papa.
A expectativa global é imensa. Em tempos marcados por divisões internas, tensões políticas, desafios morais e espirituais, a escolha do novo líder da Igreja Católica exigirá mais que carisma e ortodoxia: pedirá equilíbrio, visão pastoral e habilidade diplomática.
Segundo o protocolo da Igreja, o conclave deve começar entre 15 e 20 dias após a morte do papa. Durante esse período, os cardeais que ainda não chegaram a Roma têm tempo para se reunir. Só participam do conclave os cardeais com menos de 80 anos. Atualmente, são 124 os eleitores aptos a votar.
O processo de eleição ocorre na Capela Sistina, em sessões fechadas, onde cada cardeal deposita seu voto num pedaço de papel, em segredo. São necessárias duas votações por dia, com maioria qualificada de dois terços dos votos para que um novo papa seja eleito. Os critérios não estão escritos: pesam formação teológica, atuação pastoral, capacidade de diálogo e, nos bastidores, a costura política entre as diferentes alas da Igreja.
Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano, é hoje um dos nomes mais cotados. Italiano, experiente diplomata, é considerado o “número dois” do Vaticano e tem forte articulação com episcopados de diversos continentes. Nomeado por Francisco ao cardinalato, Parolin é discreto, habilidoso e bem visto pelas alas centristas da Igreja.
Matteo Zuppi, arcebispo de Bolonha e presidente da Conferência Episcopal Italiana, também figura entre os favoritos. É um dos mais próximos de Francisco e defensor de uma Igreja voltada aos marginalizados. Participou de missões de paz e mediações internacionais, representando a face mais pastoral e aberta do catolicismo contemporâneo.
Pierbattista Pizzaballa, Patriarca Latino de Jerusalém, tem sua força na convivência inter-religiosa em uma das regiões mais complexas do mundo. É elogiado por sua atuação em meio a judeus, cristãos e muçulmanos e pela defesa dos direitos dos palestinos. Sua ascensão seria um forte gesto simbólico do Vaticano para o Oriente Médio.
Jean-Marc Aveline, arcebispo de Marselha, é uma figura de destaque na França. Natural da Argélia, seu trabalho com migrantes e no diálogo inter-religioso atrai apoio das alas progressistas. Nomeado cardeal por Francisco em 2022, é símbolo do catolicismo aberto ao sul global e às periferias humanas.
Peter Erdo, da Hungria, representa a ala mais conservadora. Intelectual respeitado, é figura de peso nos diálogos com igrejas ortodoxas e comunidades judaicas. Tem perfil mais tradicional e agrada aos setores que desejam um retorno a uma Igreja mais rígida em temas morais e litúrgicos.
José Tolentino de Mendonça, português da Ilha da Madeira, é um dos nomes mais citados nos bastidores. Poeta, teólogo, fluente em diversas línguas, já foi arquivista e bibliotecário do Vaticano e hoje lidera o Dicastério para a Cultura e Educação. É visto como representante do pensamento contemporâneo dentro da Igreja, com ampla aceitação entre jovens religiosos e intelectuais.
No Brasil, dois nomes chamam atenção. Leonardo Steiner, arcebispo de Manaus, tem papel destacado nas pautas ambientais e na defesa da Amazônia. Representa um catolicismo comprometido com os povos originários e com o cuidado da Casa Comum. Já Sérgio da Rocha, com formação moral sólida e trânsito em várias arquidioceses, integra o seleto Conselho de Cardeais que assessora o Vaticano desde 2023. Ambos trazem o peso simbólico de uma Igreja em expansão no sul global.
O cardeal Luis Antonio Tagle, das Filipinas, é considerado um dos mais carismáticos do colégio. Ex-presidente da Caritas Internacional, é identificado com os valores de justiça social e inclusão. Mesmo nomeado por Bento XVI, tornou-se um dos favoritos de Francisco e é constantemente citado como “papável”.
Mario Grech, de Malta, articulador do Sínodo dos Bispos, também tem ganhado espaço, assim como os norte-americanos Robert Prevost, Wilton Gregory e Blase Cupich, que representam um catolicismo engajado com pautas sociais. O congolês Fridolin Ambongo Besungu, por sua vez, se destaca na África por sua defesa dos direitos humanos e promoção da paz em regiões de conflito.
A tradição jesuíta de Francisco pode abrir espaço agora para outras ordens. Os franciscanos têm força entre os cardeais italianos e latino-americanos. Os salesianos, com forte atuação missionária e educativa, também têm representantes cotados. Porém, o peso da ordem a que pertence o eleito nunca foi critério absoluto.
A Igreja parece buscar alguém que una experiência pastoral, capacidade diplomática e sensibilidade para os dilemas do século XXI. O novo papa precisará lidar com desafios como escândalos de abuso, perda de fiéis na Europa, avanço do pentecostalismo na América Latina e crises geopolíticas que afetam diretamente os católicos ao redor do mundo.
A escolha não será apenas espiritual: será estratégica. O conclave que se aproxima tem o potencial de redirecionar os rumos da Igreja por décadas. Resta saber se os cardeais manterão a linha “bergogliana” ou farão uma inflexão para o conservadorismo.
O mundo católico assiste, em silêncio e prece, ao ritual que decidirá quem vestirá o branco sucessor de Pedro. Um novo capítulo da fé católica está prestes a começar.
TENSÃO INTE Trump endurece o tom e ameaça: “O Irã deixará de existir” se romper cessar-fogo novamente
ESTREITO DE ORMUZ Novos ataques dos EUA elevam risco de guerra aberta no Oriente Médio
DESASTRE NATURAL 1430 mortos: Venezuela vive uma das maiores tragédias sísmicas de sua história
TERREMOTO VENEZUELA Venezuela vive corrida contra o tempo enquanto número de mortos chega a 920 e mais de 54 mil seguem desaparecidos
ITAMARATY Terremoto na Venezuela: tragédia deixa centenas de vítimas e atinge brasileiros
UMA ONDA AZUL América Latina desavermelha? Keiko Fujimori vence no Peru e amplia avanço da direita na região Mín. 23° Máx. 32°