
A declaração do secretário nacional de Segurança Pública, Mário Sarrubbo - “Estamos numa escala acima de uma organização criminosa” - é um alerta brutal: o Brasil não enfrenta mais apenas facções criminosas, mas redes mafiosas, com alto grau de infiltração no tecido do Estado e da sociedade. A afirmação, feita em entrevista à Veja, sintetiza a percepção, já há muito evidente nos bastidores da segurança pública, de que o crime organizado no país ultrapassou o ponto de controle tolerável.
Mas o que exatamente mudou? E por que esse reconhecimento só acontece agora?
Sarrubbo traça uma linha clara entre organização criminosa e máfia. A primeira, segundo ele, age com foco em uma ou duas modalidades de crime: tráfico de drogas, roubo de cargas, lavagem de dinheiro. A máfia, por sua vez, é multifacetada, atua em diversas frentes ilegais, infiltra-se no Estado, coopta setores da política, da economia, da segurança pública e da própria sociedade civil. No Brasil, as facções transitaram de estruturas de comando interno nos presídios para corporações criminosas que já disputam território, poder e legitimidade com o próprio Estado.
A presença do crime organizado nas licitações públicas, no financiamento de campanhas eleitorais, na captura de agentes estatais e até mesmo no controle informal de comunidades inteiras são sinais inequívocos desse novo estágio. O secretário reconhece isso - e ao nomear o problema como “máfia”, o coloca em outro patamar de complexidade e urgência.
A resposta é, infelizmente, amarga: omissão, fragmentação institucional, guerra de vaidades entre órgãos de segurança, e a ausência de um projeto nacional articulado de enfrentamento ao crime. Enquanto a escalada das facções crescia nas fronteiras e avançava para os grandes centros urbanos, os governos federal e estaduais atuavam de forma descoordenada - às vezes em disputa direta por protagonismo, outras, simplesmente ignorando os alertas.
A política de encarceramento em massa, sem controle efetivo dos presídios, ofereceu o terreno ideal para o fortalecimento das lideranças criminosas, que passaram a comandar suas redes de dentro das prisões. A ausência de uma base de dados unificada, a falta de inteligência integrada e o sucateamento das polícias civis permitiram que o crime organizado fizesse o que o Estado não conseguia: atuar com método, disciplina e coordenação.
Diante desse cenário de deterioração, o governo federal aposta em dois projetos: a PEC da Segurança, que institucionaliza o SUSP (Sistema Único de Segurança Pública), e o Projeto Antimáfia, que pretende, finalmente, definir juridicamente o conceito de máfia e estabelecer instrumentos de combate mais eficazes.
A PEC busca integrar as polícias e serviços de inteligência em nível nacional, algo que há décadas é cobrado por especialistas. A proposta, segundo Sarrubbo, seria uma espécie de “SUS da segurança pública”, conectando dados e estratégias em tempo real, respeitando a autonomia dos Estados, mas sob diretrizes nacionais.
Essa integração é urgente: hoje, uma facção criminosa que atua no Acre pode estar conectada a operações de tráfico em São Paulo e controle de armas no Paraguai - e as polícias estaduais ainda operam como ilhas, sem comunicação ou estratégia conjunta.
Já o projeto antimáfia, se for bem estruturado, pode ser um marco jurídico no combate ao crime organizado, permitindo o uso de instrumentos como confisco ampliado de bens, tipificação de infiltração institucional, e bloqueio preventivo de recursos financeiros, além de penalidades mais severas.
A resposta curta é: sim, mas com urgência, coragem e articulação nacional real. Não há mais espaço para ações simbólicas ou para reformas cosméticas. O combate às máfias exigirá não só aparato policial, mas reformas no sistema prisional, controle de fronteiras, reforço na rastreabilidade de movimentações financeiras, e um pacto federativo de segurança pública.
O maior risco agora é reconhecer o problema e continuar tratando-o como se ainda estivéssemos no estágio anterior - como se as facções ainda fossem “organizações criminosas” e não máquinas empresariais de ilegalidade e violência com tentáculos institucionais.
Porque os sinais se tornaram ensurdecedores. Em 2023 e 2024, o Brasil registrou ataques coordenados por facções em diferentes Estados, assassinatos com características de execução política, e evidências de infiltração criminal em campanhas eleitorais. Foi preciso que o crime organizasse um Estado paralelo para que o Estado oficial reconhecesse sua própria omissão.
Ao menos, o diagnóstico agora é mais honesto. A dúvida que resta é se haverá vontade política e institucional para agir antes que seja tarde demais.
Confira a entrevista completa de Sarrubbo, em : Estamos numa escala acima de uma organização crimi... | VEJA
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