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Política QUAL É O LIMITE?

Quando o protagonismo atrapalha: o caso Janja e os limites da primeira-dama

Interferências constantes, tom autoritário e rejeição crescente transformam a figura de Janja em mais um foco de desgaste para o governo Lula

04/04/2025 às 19h55 Atualizada em 04/04/2025 às 20h14
Por: Douglas Ferreira
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Momento em que Janja interrompe a solenidade e “raia” com os indígenas - Foto: Reprodução
Momento em que Janja interrompe a solenidade e “raia” com os indígenas - Foto: Reprodução

A política brasileira sempre foi repleta de personagens marcantes, muitos dos quais extrapolaram seus cargos para influenciar o debate público de forma intensa — e, por vezes, controversa. Rosângela da Silva, a Janja, atual primeira-dama do Brasil, parece seguir esse caminho. Mas ao contrário de influenciar positivamente, ela tem colecionado ruídos, interferências indevidas e uma crescente rejeição popular.

O episódio mais recente, ocorrido nesta sexta-feira (4) durante um encontro entre o presidente Lula e lideranças indígenas no Mato Grosso, ilustra com clareza a dificuldade de Janja em compreender os limites institucionais do papel que ocupa. Ao notar manifestações vindas da plateia, ela interrompeu a cerimônia e, em tom ríspido, ordenou: “Sentem, agora não. O presidente vai falar.” O alvo da bronca: indígenas — muitos deles lideranças históricas, como o cacique Raoni.

O constrangimento foi geral. Não apenas pelo tom inadequado da fala, que soou como repreensão infantil, mas pelo simbolismo do momento: um encontro com os povos originários, marcado por cobranças legítimas e promessas ainda não cumpridas. Lula tentou amenizar dizendo que “ainda há muito a ser feito”, mas a cena já estava marcada: mais um desgaste desnecessário para um governo que vem colecionando ruídos de comunicação e perda de apoio popular.

A rejeição que cresce

Não é de hoje que Janja desperta desconforto. Pesquisas recentes apontam que a rejeição da primeira-dama é comparável — e, em algumas faixas da população, até superior — à do próprio presidente. Um dado revelador, que coloca em xeque sua estratégia de protagonismo político. A interferência dela vai da comunicação institucional à agenda presidencial, passando por eventos públicos em que frequentemente assume falas ou orientações que caberiam ao cerimonial ou à equipe de governo.

Setores do próprio governo admitem, nos bastidores, que a atuação de Janja tem extrapolado os limites esperados. Há relatos de ministros e assessores incomodados com sua influência e com o espaço que ocupa, muitas vezes desconsiderando hierarquias e papéis técnicos.

O papel da primeira-dama: assessório ou protagonista?

A figura da primeira-dama, por definição, é simbólica. Seu papel é de apoio institucional, presença em causas sociais, representação diplomática quando necessário — nunca de protagonismo político. Mas Janja parece disposta a ressignificar esse papel à força, mesmo que isso traga mais danos do que ganhos à imagem do governo.

Enquanto o país enfrenta inflação persistente, desemprego em alta, dólar disparando e tensão no mercado internacional, a última coisa que o Palácio do Planalto precisa é de um novo foco de polêmica. Janja não foi eleita. Não tem mandato. E, por mais que compartilhe da intimidade presidencial, deveria entender que protagonismo político exige representatividade — e limites.

O custo político do excesso

Há quem defenda que o ativismo da primeira-dama seja bem-vindo. Mas ativismo não pode ser confundido com protagonismo forçado ou com interferência fora de hora. A cada novo episódio, Janja não só desgasta sua própria imagem como mina o esforço do governo em tentar recuperar terreno junto à população.

Em vez de pontes, ela ergue barreiras. Em vez de agregar, causa constrangimento. Talvez fosse o momento de alguém — de dentro do próprio governo — lembrar Janja de algo fundamental: respeito ao papel institucional, por mais apaixonado que se esteja por causas ou cargos. O Brasil tem pressa de soluções. E não há espaço para personalismos mal colocados.

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A NOTÍCIA E O FATO
A NOTÍCIA E O FATO
Sobre Douglas Ferreira é multimídia. Além de jornalista, é bacharel em Direito. Foi repórter da TV Clube, afiliada da Rede Globo, por 10 anos e, em Caxias, no Maranhão, apresentou o programa “Fala Caxias”. Fundou e dirigiu por seis anos a Folha do Cocais. Foi secretário de Comunicação da Prefeitura de Caxias e retornou a Teresina como âncora da TV Meio Norte. Por 20 anos, reportou e apresentou na TV Antena 10, afiliada da Record. Também foi assessor de imprensa do Tribunal de Justiça do Piauí e passou por rádios e pelos maiores portais do Estado. Sua vida é o jornalismo. No Sistema Move de Comunicação, foi editor do Portal Move Notícias e apresentador do Business Cast, do canal movetvweb no YouTube. Agora, está à frente do Gazeta Hora1.
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