
A política brasileira sempre foi repleta de personagens marcantes, muitos dos quais extrapolaram seus cargos para influenciar o debate público de forma intensa — e, por vezes, controversa. Rosângela da Silva, a Janja, atual primeira-dama do Brasil, parece seguir esse caminho. Mas ao contrário de influenciar positivamente, ela tem colecionado ruídos, interferências indevidas e uma crescente rejeição popular.
O episódio mais recente, ocorrido nesta sexta-feira (4) durante um encontro entre o presidente Lula e lideranças indígenas no Mato Grosso, ilustra com clareza a dificuldade de Janja em compreender os limites institucionais do papel que ocupa. Ao notar manifestações vindas da plateia, ela interrompeu a cerimônia e, em tom ríspido, ordenou: “Sentem, agora não. O presidente vai falar.” O alvo da bronca: indígenas — muitos deles lideranças históricas, como o cacique Raoni.
O constrangimento foi geral. Não apenas pelo tom inadequado da fala, que soou como repreensão infantil, mas pelo simbolismo do momento: um encontro com os povos originários, marcado por cobranças legítimas e promessas ainda não cumpridas. Lula tentou amenizar dizendo que “ainda há muito a ser feito”, mas a cena já estava marcada: mais um desgaste desnecessário para um governo que vem colecionando ruídos de comunicação e perda de apoio popular.
Não é de hoje que Janja desperta desconforto. Pesquisas recentes apontam que a rejeição da primeira-dama é comparável — e, em algumas faixas da população, até superior — à do próprio presidente. Um dado revelador, que coloca em xeque sua estratégia de protagonismo político. A interferência dela vai da comunicação institucional à agenda presidencial, passando por eventos públicos em que frequentemente assume falas ou orientações que caberiam ao cerimonial ou à equipe de governo.
Setores do próprio governo admitem, nos bastidores, que a atuação de Janja tem extrapolado os limites esperados. Há relatos de ministros e assessores incomodados com sua influência e com o espaço que ocupa, muitas vezes desconsiderando hierarquias e papéis técnicos.
A figura da primeira-dama, por definição, é simbólica. Seu papel é de apoio institucional, presença em causas sociais, representação diplomática quando necessário — nunca de protagonismo político. Mas Janja parece disposta a ressignificar esse papel à força, mesmo que isso traga mais danos do que ganhos à imagem do governo.
Enquanto o país enfrenta inflação persistente, desemprego em alta, dólar disparando e tensão no mercado internacional, a última coisa que o Palácio do Planalto precisa é de um novo foco de polêmica. Janja não foi eleita. Não tem mandato. E, por mais que compartilhe da intimidade presidencial, deveria entender que protagonismo político exige representatividade — e limites.
Há quem defenda que o ativismo da primeira-dama seja bem-vindo. Mas ativismo não pode ser confundido com protagonismo forçado ou com interferência fora de hora. A cada novo episódio, Janja não só desgasta sua própria imagem como mina o esforço do governo em tentar recuperar terreno junto à população.
Em vez de pontes, ela ergue barreiras. Em vez de agregar, causa constrangimento. Talvez fosse o momento de alguém — de dentro do próprio governo — lembrar Janja de algo fundamental: respeito ao papel institucional, por mais apaixonado que se esteja por causas ou cargos. O Brasil tem pressa de soluções. E não há espaço para personalismos mal colocados.
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