
O governo Lula decidiu se manifestar contra o uso de algemas nos brasileiros deportados dos Estados Unidos, após um grupo de deportados desembarcar em Manaus na última sexta-feira com correntes nas mãos, na cintura e nos pés. Porém, o episódio escancara uma contradição flagrante: em 2023, sob a gestão Joe Biden, 32 voos lotados de deportados brasileiros desembarcaram no Brasil exatamente sob as mesmas condições – algemados e tratados como prisioneiros. Onde estava o governo brasileiro nesse período? Por que a indignação só surgiu agora, com Donald Trump à frente?
A retórica do Planalto, que inclui críticas inflamadas de Lula, do ministro da Justiça Ricardo Lewandowski e da presidente do PT, Gleisi Hoffmann, soa desconexa e contraditória. Durante o governo Biden, deportados brasileiros eram tratados de forma idêntica – algemas no embarque, medidas de segurança reforçadas e escolta policial. Isso não gerou protestos, notas de repúdio ou reuniões com embaixadores. Curiosamente, a revolta só aparece agora, associada a Trump, sugerindo um rancor seletivo que mais parece um resquício de divergências ideológicas do passado do que um compromisso com a defesa dos direitos dos brasileiros no exterior.
Desde a campanha de Donald Trump, Lula tem mantido uma postura dura e, em muitos momentos, impulsiva. Chegou a chamar o republicano de "fascista" e "nazista" às vésperas da eleição americana, quebrando protocolos diplomáticos que recomendam discrição em temas sensíveis. Essa mesma abordagem foi vista agora, com o governo reagindo ao caso de Manaus como se fosse um evento isolado ou sem precedentes, ignorando os 32 voos recebidos na gestão anterior.
Pior ainda, a postura de protestar publicamente para, em seguida, adotar um discurso de "discrição" ao convocar o encarregado de negócios da Embaixada dos EUA, Gabriel Escobar, soa contraditória. Após acusações inflamadas e declarações carregadas de emoção, o Itamaraty agora fala em resolver o caso com "cautela" e em um tom técnico, evitando amplificar o desgaste. Essa tentativa de "virada de chave" não só enfraquece a posição do Brasil, como demonstra a falta de alinhamento entre a retórica política e a estratégia diplomática.
A crítica mais contundente que emerge desse episódio é a incoerência do governo brasileiro. Se o padrão de deportação americana envolve o uso de algemas para quem representa riscos ou acumula meses de detenção, por que o governo Lula só agora se manifesta? A resposta pode estar menos relacionada a uma real preocupação com os direitos humanos e mais a um ranço político contra Trump, que parece nortear a narrativa governamental.
É importante lembrar que os deportados não são heróis ou vítimas de um sistema opressor – muitos deles são acusados de crimes nos EUA, e o uso de algemas é uma medida de segurança aplicada em diversos países, incluindo o Brasil. No entanto, a crítica seletiva ignora esse contexto e transforma o caso em um ataque político.
O episódio de Manaus deveria ter sido tratado como uma oportunidade para o Brasil reafirmar seu compromisso com a dignidade dos seus cidadãos no exterior, independentemente do governo americano de plantão. Em vez disso, o governo optou por um protesto tardio, desconectado da realidade e que esbarra em suas próprias contradições.
Se o Brasil quer se posicionar de forma firme e coerente, é essencial abandonar a retórica ideológica e encarar os fatos com pragmatismo. Enquanto o governo mistura indignação seletiva com declarações intempestivas, as relações com os EUA – um dos maiores parceiros comerciais e políticos do Brasil – podem sofrer danos desnecessários. Afinal, a diplomacia não é lugar para demonstrações de rancor ou incongruências: é um campo que exige equilíbrio, consistência e, acima de tudo, bom senso.
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