
O governador do Piauí, Rafael Fonteles (PT), anunciou a distribuição do livro Ainda Estou Aqui, de Marcelo Rubens Paiva, nas escolas estaduais, em um movimento que chamou a atenção tanto pela relevância histórica da obra quanto pela falta de transparência na iniciativa. O livro, que narra o drama da família Paiva durante o regime militar, ganhou as telonas no filme homônimo dirigido por Walter Salles, indicado ao Oscar 2025 na categoria de Melhor Filme, com Fernanda Torres concorrendo ao prêmio de Melhor Atriz.
Embora a ação pareça, à primeira vista, uma medida para promover cultura e memória histórica, questões importantes permanecem sem respostas: qual foi o critério para a escolha do livro? Quanto custará essa distribuição aos cofres públicos? Como se deu o processo de compra da obra? Além disso, como será realizada a entrega? Os livros irão diretamente para os alunos ou ficarão restritos às bibliotecas das escolas?
Fonteles usou suas redes sociais para enaltecer o livro e o filme, ressaltando a importância de ensinar às novas gerações sobre os horrores do regime militar e fortalecer os valores democráticos. No entanto, a ausência de debate sobre o processo que culminou nessa iniciativa levanta suspeitas. Por que Ainda Estou Aqui foi escolhido, em detrimento de outras obras literárias? A iniciativa visa realmente promover cultura ou é mais um “mimo” político com viés ideológico?
O livro retrata o sofrimento de Eunice Paiva, mãe de Marcelo, ao buscar respostas sobre o desaparecimento do marido, Rubens Paiva, deputado federal torturado e morto pelo regime militar. Trata-se de uma história importante, mas que reflete apenas um lado da narrativa histórica. O foco exclusivo em episódios do passado autoritário contrasta com a falta de atenção dada às arbitrariedades e censuras vividas no Brasil atual. Assim como na época dos militares, o país enfrenta hoje questionamentos sobre a liberdade de expressão, censura e prisões de jornalistas e opositores políticos.
A mídia, por sua vez, parece ter abraçado a medida do governador sem questionar os detalhes ou levantar críticas. Será que o uso de uma obra que narra os horrores do passado não serve também como um espelho para os tempos sombrios que muitos acreditam viver hoje? No “Brasil democrático”, com episódios de censura, processos sigilosos e perseguições a quem ousa discordar da narrativa oficial, os paralelos históricos se tornam inevitáveis.
A escolha de um livro tão carregado de simbolismo histórico como Ainda Estou Aqui deveria ser acompanhada de transparência e diálogo. O custo, o impacto nas escolas e a verdadeira intenção da ação precisam ser debatidos. Afinal, a memória de Rubens Paiva, assim como o drama de sua família, não deveria ser instrumentalizada por interesses políticos de qualquer vertente. O que se espera, no mínimo, é que a cultura e a educação sejam tratadas com seriedade e isenção, para que os jovens tenham acesso a todas as facetas da história - do passado e do presente.
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