
A Colômbia vive mais um capítulo sangrento de sua longa história de conflitos armados. Nos últimos quatro dias, confrontos intensos entre guerrilheiros na região de Catatumbo, na fronteira com a Venezuela, resultaram em mais de 80 mortes, centenas de feridos e o deslocamento de 11 mil pessoas. Desesperados, muitos civis cruzaram o Rio Tarra em embarcações improvisadas, buscando abrigo no país vizinho.
O cenário de caos é protagonizado por grupos armados que disputam o controle de territórios estratégicos para o narcotráfico. De um lado, o ELN (Exército de Libertação Nacional), que tem expandido sua presença na região; do outro, dissidentes das antigas Farc - Forças Revolucionárias da Colômbia, que rejeitaram o acordo de paz de 2016 e permanecem ativos. A rivalidade entre essas facções transforma a fronteira em um campo de batalha, onde civis são alvos constantes.
Enquanto isso, no norte da Colômbia, o ELN trava outra guerra, desta vez contra o Clã do Golfo, o maior cartel de drogas do país. Esses confrontos agravam ainda mais a crise, somando novas vítimas a uma violência que parece não ter fim.
A resposta do governo colombiano, liderado por Gustavo Petro, tem sido tímida diante da escalada da violência. Apesar de sua proposta de "paz total", o presidente suspendeu as negociações de paz com o ELN na última sexta-feira (17), alegando falta de comprometimento do grupo. Porém, a decisão é vista por muitos como uma tentativa de conter as críticas crescentes à sua gestão.
Mais de 5 mil soldados foram enviados para reforçar a segurança em Catatumbo, mas os resultados são insuficientes. Escolas foram convertidas em abrigos, enquanto comunidades inteiras permanecem sitiadas e aterrorizadas.
A disputa vai muito além do controle territorial. Catatumbo, rica em recursos naturais e uma das principais rotas do narcotráfico, é o prêmio cobiçado por guerrilhas e cartéis. Quem dominar a região, dominará uma das maiores economias ilícitas da América Latina.
Para a população civil, no entanto, a guerra só trouxe sofrimento. “Há ataques indiscriminados contra combatentes e civis acusados de colaborar com um grupo ou outro”, afirmou Iris Marín, chefe da Defensoria Pública. As famílias, presas em um fogo cruzado, perdem tudo - lares, segurança e dignidade.
Catatumbo enfrenta uma das piores crises humanitárias de sua história. Com mais de seis décadas de conflito armado, a Colômbia já contabiliza 9,5 milhões de vítimas, a maioria delas deslocadas. A região se tornou um microcosmo desse sofrimento, simbolizando a falência de um Estado incapaz de garantir a paz e a segurança de seu povo.
Enquanto o governo tenta conter os danos, os grupos armados seguem fortalecidos, ampliando seu poder e desafiando a ordem pública. A guerra entre guerrilhas é, na prática, um duelo pelo controle de economias ilícitas que movimentam bilhões. Nesse tabuleiro, quem mais perde são os civis, deixados à mercê de uma violência que não dá sinais de trégua.
A Colômbia, mais uma vez, se encontra diante de uma encruzilhada. Resta saber se o governo Petro terá força e estratégia para enfrentar não só as guerrilhas, mas também as causas estruturais que perpetuam o conflito – ou se o país continuará prisioneiro de sua própria história de sangue e dor.
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