
A decisão do CEO da Meta, Mark Zuckerberg, de abandonar a moderação externa e adotar um modelo inspirado no X - transferindo para a própria comunidade a responsabilidade pela checagem de informações - provocou um verdadeiro 'terremoto' na mídia e no meio político no Brasil. Curiosamente, o impacto foi sentido quase exclusivamente no território brasileiro. No restante do mundo, a mudança parece ter sido compreendida como uma resposta legítima às pressões crescentes sobre as plataformas digitais.
Entretanto, para os políticos de esquerda no Brasil, a decisão soou como o prenúncio do fim dos tempos. Lula da Silva, Fernando Haddad e outros nomes do governo não pouparam críticas, tratando a medida como um ataque à democracia e classificando-a como um “convite à direita”. Haddad expressou pânico com o que chamou de “fim do filtro”, enquanto a equipe de comunicação do presidente correu para exigir a aceleração da regulação das redes sociais.
O que ninguém mencionou, no entanto, foram os motivos apresentados pelo próprio Zuckerberg para justificar a decisão. Em seu anúncio, o fundador da Meta fez uma denúncia contundente: a existência de “tribunais secretos” que operam nos bastidores para determinar o que pode ou não ser publicado. Tudo de forma silenciosa. Essa afirmação alarmante, embora tenha sido o ponto central da mudança, foi totalmente ignorada pela mídia brasileira e pelos defensores da censura.
Quantos pedidos foram feitos, em segredo, pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para suspender perfis de brasileiros no X e no Facebook? Quantas contas foram apagadas sem transparência ou direito à defesa? Essas questões não foram sequer mencionadas por aqueles que hoje se apressam em condenar a Meta.
A decisão de Mark Zuckerberg reflete um cansaço crescente das grandes plataformas diante do cerco imposto por governos autoritários e tribunais que operam à margem da legalidade, nas sombras. Assim como a Interpol ignorou e ridicularizou o pedido de prisão de um jornalista brasileiro auto-exilado nos Estados Unidos por “crime de opinião”, as big techs estão reagindo ao autoritarismo e reafirmando seu compromisso com a liberdade de expressão. Afinal, o facebook surgiu para dar voz ao cidadão.
Enquanto o Brasil se afunda em medidas de controle e censura disfarçadas de defesa da democracia, o restante do mundo avança na proteção dos princípios fundamentais de liberdade. A denúncia sobre “tribunais secretos” na América Latina e no Brasil deveria ser motivo de preocupação e debates sérios, inclusive, na grande mídia. Em vez disso, foi varrida para debaixo do tapete por uma imprensa submissa e alinhada ao poder.
Afinal, por que a mídia brasileira e os defensores do autoritarismo preferem ignorar essa realidade? O que ganham ao silenciar sobre as arbitrariedades praticadas? Essas perguntas seguem sem respostas claras, enquanto o país caminha a passos largos para um Estado de vigilância e repressão.
Mais preocupante ainda é a hipocrisia daqueles que justificam essas ações como defesa da democracia. Qual democracia tolera prisões arbitrárias, censura prévia e o uso de juízes como investigadores, promotores e executores de penas? Nenhuma nação verdadeiramente democrática no Ocidente civilizado compactua com essas práticas.
O desaparecimento de Rubens Paiva durante durante a ditadura militar é um exemplo sombrio de um passado que o Brasil jurou nunca repetir. No entanto, em pleno século XXI, cidadãos brasileiros - de jornalistas a políticos e até moradores de rua - vivem sob o mesmo espectro do medo, perseguição e silêncio forçado.
Enquanto celebramos a vitória de Fernanda Torres no Globo de Ouro, ignoramos o drama de um país que prende deputados federais, exila jornalistas e criminaliza opiniões. Ritos implementados pela ditadura denunciados na película Ainda Estou Aqui, do diretor Walter Salles. Tudo isso em nome de uma democracia cada vez mais relativizada.
Até quando?
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