
O peso argentino encerrou 2024 como a moeda com maior valorização real no mundo, impulsionado pelas políticas monetárias do presidente Javier Milei. Conhecida como “superpeso”, a moeda registrou um aumento de 44,2% nos primeiros 11 meses do ano, superando a lira turca, que ficou em segundo lugar com 21,2%, segundo dados do Banco de Compensações Internacionais (BIS) analisados pela consultoria GMA Capital. A valorização também refletiu no mercado paralelo de câmbio, onde a população argentina realiza a maior parte das transações.
A valorização tem gerado impacto direto no cotidiano dos argentinos. Preços de produtos em dólar dispararam, como exemplificado pelo aumento do preço de um Big Mac de US$ 3,80 para US$ 7,90 em um ano. Por outro lado, o salário médio em dólares quase dobrou, alcançando US$ 990 em outubro de 2024, após sete anos de depreciação constante. “A percepção de um dólar mais acessível traz sensação de estabilidade para a classe média”, destacou Lucas Romero, diretor da consultoria Synopsis, ao Financial Times.
A estabilidade do peso tem sido sustentada por controles cambiais rígidos, combinados com políticas de austeridade e esforços para desregulamentar a economia, reduzir impostos e melhorar o crédito. Além disso, Milei aposta em grandes investimentos nas reservas nacionais de lítio, xisto e gás, que podem aumentar as exportações e reforçar o fluxo de moeda estrangeira no futuro.
Apesar dos avanços, a manutenção da valorização em 2025 enfrenta desafios. Entre eles, a rápida depreciação do real brasileiro e o risco de uma onda tarifária dos EUA, caso Donald Trump intensifique barreiras comerciais contra a China, o que pode impactar mercados emergentes, segundo Robin Brooks, do Brookings Institution. Outro ponto crítico será a suspensão dos controles cambiais, planejada para o final de 2025, considerada um teste de fogo para a estabilidade da moeda.
Analistas destacam que, embora a política cambial de Milei tenha mostrado resultados, a sustentabilidade de um peso forte no longo prazo é incerta. “É improvável que a Argentina consiga manter esse nível de valorização além do próximo ano”, avaliou Martín Rapetti, da Equilibra. Uma recente anistia fiscal tem atraído dólares para a economia, mas o cenário ainda depende de fatores externos e internos, como a capacidade de atrair novos investimentos e administrar as mudanças cambiais previstas.
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