
Apesar de liberar emendas parlamentares em volumes recordes, na casa dos bilhões, desde que assumiu a presidência em 1º de janeiro de 2023, o governo Lula enfrenta dificuldades para aprovar Medidas Provisórias (MPs) no Congresso Nacional. Dados revelam que a taxa de aprovação de MPs no atual mandato é a mais baixa desde a promulgação da Constituição, em 1988.
Nos dois primeiros anos de governo, das 126 MPs apresentadas, apenas 19 foram convertidas em lei, o que equivale a uma taxa de 15,87%. Em 2024, por exemplo, das 74 MPs editadas, apenas 8 viraram lei, alcançando um índice de 10,08%. Embora o percentual possa aumentar com a tramitação de algumas medidas pendentes, os números evidenciam um desempenho político abaixo da média histórica.
O baixo desempenho de Lula contrasta fortemente com seus antecessores. Jair Bolsonaro (2019/2020) obteve 47,44% de aprovação; Michel Temer (2016/2018), 58%; Dilma Rousseff no primeiro mandato (2011/2012) registrou 82,72% e no segundo (2015/2016), 76,2%; enquanto os governos anteriores do próprio Lula tiveram 86,36% (2007/2008) e 93,89% (2003/2004). Já Fernando Henrique Cardoso (2001/2002) alcançou 82,4%.
O levantamento, feito pela Coordenação de Relacionamento, Pesquisa e Informação do Centro de Documentação e Informação (CEDI) da Câmara dos Deputados, mostra que a capacidade de aprovação de MPs tem caído, sugerindo um enfraquecimento do poder do Executivo frente ao Legislativo.
Analistas apontam que o cenário atual é resultado das mudanças nos mecanismos de distribuição de recursos e poder. Emendas parlamentares, que antes funcionavam como moeda de troca, tornaram-se parcialmente impositivas, limitando a capacidade do governo de barganhar apoios.
Além disso, a estratégia do governo de recorrer massivamente à liberação de emendas pode ter gerado uma dependência dos parlamentares em relação a novos repasses, criando um ciclo em que votos só são garantidos mediante liberações financeiras contínuas.
Medidas Provisórias são ferramentas usadas pelo presidente para estabelecer normas com força de lei em situações urgentes e relevantes. Entram em vigor imediatamente após sua publicação, mas precisam ser aprovadas pelo Congresso dentro de 120 dias (prorrogáveis por mais 60) para serem convertidas em lei definitiva.
Durante esse período, a MP é analisada por uma Comissão Mista formada por deputados e senadores e, em seguida, votada nos plenários da Câmara e do Senado. Caso não seja aprovada dentro do prazo, perde a validade.
A dificuldade de aprovar MPs reflete uma fragilidade na articulação política do governo Lula. Mesmo com a liberação recorde de recursos, o presidente enfrenta resistências e cobranças crescentes dos parlamentares. Críticos apontam que a estratégia de governar por meio de liberação de emendas pode ter enfraquecido a capacidade de negociação política do Planalto. Sem contar que o líder do governo na Câmara, José Guimarães, parece não gozar de aceitação entre seus pares e carrega o estigma da corrupção desde que um acessor seu foi preso carregando dólares na cueca.
Com um Congresso cada vez mais independente e fragmentado, Lula precisará rever sua estratégia para evitar novos reveses. Caso contrário, corre o risco de ver sua governabilidade ainda mais comprometida, mesmo com um orçamento bilionário à disposição.
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