
Até 2 de setembro deste ano, Gisèle Pelicot era uma figura quase desconhecida. Avó e discreta, ela não tinha presença nas redes sociais e raramente era vista em fotos na internet. Três meses depois, nesta quinta-feira, sua imagem já havia se tornado um ícone de força feminina global. Aos 72 anos, ela enfrentou o ex-marido Dominique Pelicot e mais de 50 homens em um julgamento por abuso sexual, realizado no tribunal de Avignon, na França. Sua figura apareceu em cartazes de protesto, murais, e até mesmo em uma capa fictícia da revista Time como “Pessoa do Ano”, transformando sua tragédia pessoal em símbolo de resistência para mulheres ao redor do mundo.
O caso veio à tona após a descoberta de que Dominique drogava Gisèle entre 2011 e 2020 para submetê-la a estupros enquanto estava inconsciente. Ele foi condenado a 20 anos de prisão, com possibilidade de liberdade condicional apenas após cumprir dois terços da pena. Durante o julgamento, o ex-marido admitiu seus atos, que incluíam não apenas os abusos contra Gisèle, mas também crimes contra outras mulheres e membros da própria família. O tribunal também condenou 50 outros envolvidos, com penas variando de três a 15 anos de reclusão.
Gisèle, que renunciou ao direito ao anonimato para que o julgamento fosse público, agradeceu o apoio recebido e fez um apelo para que a sociedade abandone atitudes patriarcais. “Estou pensando nas vítimas cujas histórias permanecem nas sombras. Quero que saibam que compartilhamos a mesma luta”, disse ela. Para muitas mulheres, a coragem de Gisèle representou um ponto de virada em relação ao silenciamento de vítimas de abuso.
O impacto do caso ultrapassou o tribunal. A investigação começou em 2020, quando Dominique foi flagrado filmando por baixo das saias de mulheres em um supermercado. A polícia encontrou mais de 20 mil fotos e vídeos de abusos contra Gisèle, organizados em pastas com títulos como “abusos” e “estupradores dela”. Durante o julgamento, alguns réus alegaram acreditar que participavam de uma fantasia sexual consentida, argumento amplamente contestado pela promotoria.
Do lado de fora do tribunal, manifestantes acompanharam o desfecho do julgamento segurando laranjas, que se tornaram um símbolo de apoio às vítimas. A cada sentença anunciada, aplausos ecoavam entre o público, que celebrava a punição dos criminosos. Para Gisèle, no entanto, a luta continua: “Quero que nenhuma vítima sinta vergonha de contar sua história”, declarou.
O caso desencadeou um debate nacional sobre a cultura do estupro na França e levou às discussões sobre mudanças no Código Penal para enfatizar que sexo sem consentimento é estupro. Fanny Foures, ativista feminista, destacou que o julgamento está fazendo homens refletirem sobre comportamentos passados e incentivando mulheres a reconhecerem abusos que sofreram. “É um peso enorme, mas está criando mudanças”, afirmou.
A artista LaDame Quicolle, que criou retratos de Gisèle para expor em cidades europeias, reforçou que sua coragem transformou a normalidade de uma mulher comum em superpoder. Durante o julgamento, Gisèle abandonou os óculos escuros que usava como proteção emocional, estabelecendo contato visual direto com seus apoiadores — um gesto simples, mas carregado de significado.
Na fachada do tribunal, uma faixa dizia: “Merci, Gisèle”. Sua história não é apenas um testemunho de resiliência, mas também um apelo para que o mundo olhe mais de perto para as vítimas silenciadas e lute por uma justiça que não falhe novamente.
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