
O investimento massivo em infraestrutura foi um dos pilares do crescimento econômico da China nas últimas décadas. No entanto, o setor ferroviário de longa distância para trens de alta velocidade revela um descompasso entre a grandiosidade dos projetos e a real necessidade do país. Sob a liderança de Xi Jinping, no poder desde 2012, a China priorizou a expansão dessa malha ferroviária, que está prestes a ultrapassar 48 mil quilômetros.
De acordo com o The Wall Street Journal (WSJ), mais de US$ 500 bilhões foram investidos em novas ferrovias, trens e estações nos últimos cinco anos. Contudo, a crise demográfica chinesa levanta dúvidas sobre a viabilidade desse investimento. Desde 2022, o país enfrenta uma queda populacional inédita desde a Grande Fome de 1961. Só no último ano, a população encolheu em 2,75 milhões de habitantes, mais que o dobro da perda registrada em 2021.
Estudos apontam para um cenário de ociosidade crescente na rede ferroviária. No condado de Fushun, província de Sichuan, 12 estações de trens de alta velocidade atendem a uma população de apenas 700 mil habitantes, que continua diminuindo. Comparativamente, enquanto a linha Xangai-Hangzhou transporta cerca de 100 mil passageiros por dia, a linha de Fushun, de tamanho semelhante, registrou uma média diária de apenas 9 mil passageiros desde 2021, evidenciando o subaproveitamento da infraestrutura.
A situação financeira da estatal China State Railway também é preocupante. Com uma dívida próxima de US$ 1 trilhão, a empresa enfrenta dificuldades para manter sua sustentabilidade. Em agosto, o Nikkei Asia relatou que a companhia foi forçada a elevar tarifas e oferecer assentos premium para tentar equilibrar as contas. O custo anual de amortização da dívida é de US$ 25 bilhões, pressionando ainda mais as finanças.
Especialistas alertam para os riscos desse modelo. Dhaval Desai, em artigo para o think tank Observer Research Foundation, classificou o financiamento das ferrovias chinesas como uma “armadilha de dívidas”. Ele adverte que, embora o projeto tenha impressionado o mundo, seus problemas financeiros internos expõem riscos significativos. Países em desenvolvimento que pretendem seguir esse modelo devem estar atentos às possíveis armadilhas econômicas e à sustentabilidade de longo prazo.
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