
Às vezes, o Brasil é um palco onde democracia e justiça parecem atuar em peças distintas, com regras que mudam conforme a conveniência. Em 41 anos de jornalismo, já vi de tudo: da repressão sob o regime militar até a suposta liberdade da democracia atual. O curioso? Hoje, muitos de nós, jornalistas, que deveríamos desfrutar de uma "democracia plena", enfrentamos censura, prisão e exílio. Afinal, que tipo de democracia é essa, onde senhorinhas com um terço na mão são presas por "atos antidemocráticos" e quem passa batom numa estátua vira alvo de processo?
Vamos refletir sobre o "risco" à democracia que alguns insistem em ver em pequenos atos de protesto, como a presença de cidadãos acampados em frente a quartéis. A democracia brasileira, que se orgulha de estar entre as mais fortes do continente, agora teme essas pequenas manifestações como se representassem uma verdadeira ameaça de golpe. Mas, quando um desequilibrado explode fogos na Praça dos Três Poderes e tira a própria vida, ouvimos na mesma noite, de Brasília a Teresina, declarações de que se tratava de um "atentado terrorista".
A rapidez com que se classifica um evento desses como terrorismo chama a atenção. Afinal, o sujeito era um aloprado sem qualquer organização articulada, mas, para alguns, era mais fácil encaixá-lo em uma narrativa conveniente. E quando recordamos de Adélio Bispo, que esfaqueou um candidato à presidência, a mesma pressa não se fez presente. Adélio, ex-filiado ao PSOL, foi logo visto como um "lobo solitário" sem ligações partidárias ou ideológicas. E como as coisa mudam conforme as circunstâncias a ministra Simone Tebet já apressou e cravou que, "lobos nunca são solitários".
A imprensa, por sua vez, não perde a chance de lançar interpretações. No caso de Wanderley, foi apontado como um ato "coordenado" para desestabilizar a imagem do Brasil em frente ao G20. E como isso teria sido arquitetado? Associações apressadas foram feitas com o PL, esquecendo que em 2020 Bolsonaro nem ao menos estava filiado a esse partido. Mas, como em outras histórias, conveniência e imparcialidade raramente dividem o mesmo espaço na narrativa.
É difícil para qualquer cidadão aceitar que, criminosos que cometem violências brutais sejam vistos como "vítimas da sociedade". E isso quando o próprio presidente Lula da Silva relativiza crimes como o roubo de um celular, dizendo que "é para tomar uma cervejinha no fim de semana". Lula ja disse também que está cansado de ver jovens presos, muitos vezes "apenas porque roubou um celular".
A questão que fica é: que democracia é essa onde a justiça e o tratamento da mídia mudam ao sabor de ideologias? A sensação de "dias piores" talvez não seja apenas o medo de um ato isolado, mas sim do que a seletividade da justiça e das instituições traz ao cidadão comum, que assiste, entre confuso e revoltado, à mudança de peso na balança da justiça brasileira. Isso pode ser chamado de tudo, menos de democracia.
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