
Nos últimos anos, o Brasil testemunhou a ascensão de uma nova facção criminosa, tão poderosa quanto as já conhecidas PCC, Comando Vermelho e Bonde dos 40. Trata-se do Povo de Israel (PVI), grupo que surgiu no interior dos presídios do Rio de Janeiro e que hoje conta com uma impressionante legião de 18 mil associados, tornando-se a maior facção do estado. O que mais chama a atenção é que, além de dominar o sistema prisional carioca, o PVI já conseguiu se expandir para 15 estados brasileiros, realizando extorsões e golpes que movimentaram R$ 67 milhões em apenas dois anos.
O modus operandi da facção revela uma situação alarmante: de dentro dos presídios, os membros do PVI utilizam celulares para aplicar golpes de falso sequestro e extorsão. A impunidade e a falta de controle dentro das penitenciárias são tão gritantes que, mesmo presos, os criminosos continuam a agir como se estivessem livres. Em operações financeiras rastreadas pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), o grupo foi capaz de lavar dinheiro através de empresas de fachada, que vão desde construtoras até lotéricas.
Com uma estrutura bem organizada e hierárquica, o Povo de Israel conseguiu infiltrar-se profundamente no sistema penitenciário. Atualmente, suas "aldeias" estão presentes em 13 unidades prisionais do Rio de Janeiro, onde os líderes continuam a coordenar golpes e até o tráfico de drogas. O relatório da Secretaria de Administração Penitenciária (Seap) mostra que o grupo ampliou seu poder ao firmar acordos com grandes fornecedores de drogas, enviando remessas consideráveis para os presídios.
Apesar da gravidade da situação, o que mais causa perplexidade é a falta de controle dentro dos presídios brasileiros. Como é possível que uma facção criminosa nasça, cresça e prospere dentro de um ambiente que deveria ser o mais controlado do sistema de segurança pública? Entre 2023 e 2024, foram apreendidos mais de 5.800 celulares nas unidades sob influência do PVI — isso representa uma média de oito aparelhos por dia, mostrando o nível de descontrole.
Enquanto os números de golpes por telefone explodem — foram mais de 100 mil casos de estelionato no Rio de Janeiro em apenas nove meses — as forças de segurança parecem incapazes de conter a ascensão dessas facções. O lucro gerado pelos golpes do Povo de Israel é dividido de forma organizada: 30% para o “empresário” que comanda o celular, 30% para o “ladrão” que executa o golpe, 30% para o “laranja” que recebe o dinheiro, e o restante vai para o caixa comum da facção. Um verdadeiro negócio criminoso, rodando como uma empresa bem estruturada, mas com consequências devastadoras para a sociedade.
As investigações também trouxeram à tona um esquema de corrupção dentro do próprio sistema prisional. Cinco policiais penais, com histórico de atuação nas unidades controladas pelo PVI, foram identificados como receptores de propinas que somaram R$ 437 mil. Esses servidores, ao invés de reforçar a segurança, estavam facilitando a entrada de drogas e celulares, permitindo que a facção operasse com ainda mais liberdade.
Diante de tudo isso, a pergunta que não quer calar é: onde estão as forças de segurança? Por que o Estado parece impotente diante do crescimento dessas organizações? A resposta passa pela falta de fiscalização e de políticas efetivas para coibir a entrada de celulares, o que, na prática, torna as prisões brasileiras centros de operação do crime organizado. As revistas nos presídios, quando ocorrem, são insuficientes, e a corrupção, como se vê, também contribui para que a engrenagem continue girando.
Enquanto o Povo de Israel cresce e se fortalece, a população continua a ser vítima de extorsões, golpes e ameaças vindas diretamente das cadeias. O impacto financeiro, social e psicológico desses crimes é incalculável. E o mais chocante é que tudo isso acontece à vista de todos, sem que as autoridades consigam efetivamente parar esse ciclo de criminalidade dentro do sistema prisional.
O Brasil precisa urgentemente de uma reforma no sistema penitenciário que vá além de operações pontuais. A realidade atual mostra que as facções criminosas, especialmente o Povo de Israel, não só sobreviveram às cadeias, mas encontraram nelas um ambiente fértil para prosperar. A omissão e a complacência diante dessa realidade apenas perpetuam um ciclo de violência e impunidade, com consequências que atingem diretamente a sociedade. Se nada for feito, o crime continuará ditando suas próprias regras — de dentro e de fora dos presídios.
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