
10, 9, 8, 7... começou a contagem regressiva para a eleição que pode mudar de vez os destinos do Brasil.
É como dizem analistas políticos e comentaristas do pleito: esta é uma eleição “plebiscitária”. E por quê? A resposta é simples. Porque, embora existam outras candidaturas, a disputa se concentra cada vez mais em dois campos políticos antagônicos: de um lado, o continuísmo do governo Lula da Silva e tudo o que ele representa; do outro, o projeto político representado por Flávio Bolsonaro.
E aqui está o ponto que realmente interessa: é preciso olhar para o Brasil.
Para a economia. Para o emprego. Para os impostos. Para os juros. Para as contas públicas. Para a segurança. Para o desenvolvimento. Para a capacidade do Estado de entregar serviços. Para o futuro de uma nação inteira e, principalmente, para o futuro de uma geração.
A discussão não pode ficar aprisionada na velha guerra entre direita e esquerda.
O eleitor vai precisar olhar para o que foi prometido, para o que foi realizado e para aquilo que está sendo prometido agora.
E as pesquisas mostram por que ninguém pode cantar vitória antes da hora.
No segundo turno, Lula e Flávio Bolsonaro aparecem separados por diferenças mínimas em diferentes institutos. Na Quaest, divulgada em 21 de setembro, Flávio tinha 42%, contra 41% de Lula. Na BTG/Nexus, Lula aparecia com 46% e Flávio com 45%. E na AtlasIntel/Bloomberg, a diferença era ainda menor: 47,7% para Lula contra 47,4% para Flávio. Todos esses resultados estão dentro das respectivas margens de erro e configuram empate técnico.
O Datafolha, por sua vez, apontou Lula com 47% e Flávio com 45%, também dentro da margem de erro de dois pontos.
Ou seja: não existe, nos levantamentos citados, espaço para triunfalismo de nenhum dos lados.
A partida está aberta.
E há um componente especialmente importante: o eleitorado que ainda pode mudar de posição. O Datafolha identificou que 46% dos eleitores não alinhados nem ao lulismo nem ao bolsonarismo ainda poderiam mudar de voto.
É esse eleitor que virou objeto de desejo das duas campanhas.
Lula chega à última semana apostando no que seus críticos já batizaram de “Pacote de Bondades”.
Entraram no cardápio o reajuste do Bolsa Família, a promessa de disponibilizar canetas emagrecedoras no SUS e a medida provisória que determina o fim das bets. São anúncios de forte apelo social e eleitoral, especialmente entre segmentos que tradicionalmente pesam na votação presidencial.
Mas algumas dessas promessas merecem ser examinadas com lupa.
A promessa das canetas emagrecedoras, por exemplo, chama atenção justamente pelo tamanho do desafio. Lula anunciou que o SUS poderá oferecer medicamentos contra a obesidade, mas a incorporação ainda depende de análise da Conitec. O próprio Ministério da Saúde informa que esses medicamentos ainda não são oferecidos regularmente pelo SUS.
E há uma informação que muda bastante a dimensão da promessa: os preços caíram fortemente com a concorrência. O Ministério da Saúde afirma que produtos que antes custavam entre R$ 1,7 mil e R$ 2 mil já podem ser encontrados na faixa de R$ 300 a R$ 400.
Portanto, mais do que repetir que se trata de um medicamento de aproximadamente R$ 3 mil, o ponto jornalisticamente relevante é outro: é uma política que ainda está em processo de incorporação ao SUS e que exigirá critérios médicos, orçamento e capacidade de execução.
A pergunta legítima é: se o governo ainda enfrenta dificuldades para entregar serviços básicos de maneira uniforme pelo país, qual será a capacidade de universalizar um tratamento caro e de uso prolongado?
É uma pergunta, não uma acusação.
Aqui também é preciso separar discurso de estatística.
O desemprego oficial realmente está baixo. A PNAD Contínua registrou 5,4% de desocupação no segundo trimestre de 2026, com 5,9 milhões de pessoas desocupadas.
Mas existe uma informação importante que não pode ser escondida nem utilizada de maneira distorcida: o IBGE esclarece que receber Bolsa Família, BPC ou outro benefício social não determina se uma pessoa será considerada ocupada, desocupada ou estará fora da força de trabalho.
Um beneficiário pode estar trabalhando e ser classificado como ocupado; pode estar procurando emprego e ser considerado desocupado; ou pode não estar trabalhando nem procurando trabalho e, nesse caso, estar fora da força de trabalho.
Portanto, seria incorreto afirmar que a taxa de desemprego é artificialmente baixa simplesmente porque beneficiários do Bolsa Família entram como empregados. Eles não entram automaticamente. Mas também seria equivocado ignorar que uma parcela significativa da população está fora da força de trabalho e que o desemprego, sozinho, não conta toda a história do mercado de trabalho.
É justamente aí que entra o jornalismo: nem maquiar o número, nem esconder o que existe por trás dele.
Na comparação entre governos, o debate fiscal também é inevitável.
O Governo Central terminou 2022, último ano do governo Jair Bolsonaro, com superávit primário de R$ 54,9 bilhões.
Ao mesmo tempo, seria incorreto transformar esse número isolado em prova de que todas as contas estavam resolvidas. O mesmo cuidado vale para o governo atual.
No caso das estatais, por exemplo, não é correto dizer que todas acumulam prejuízos. Mas os números dos Correios são expressivos: a empresa registrou prejuízo líquido de aproximadamente R$ 8,5 bilhões em 2025, segundo dados oficiais citados pelo TCU.
A discussão, portanto, não pode ser construída com propaganda de nenhum dos lados. Superávit, déficit, desemprego, inflação e crescimento precisam ser analisados dentro de seus respectivos contextos.
É assim que se compara governo.
Do outro lado, Flávio Bolsonaro aposta na estratégia do “voto útil”, tentando atrair eleitores de candidatos de direita e centro-direita, enquanto Lula procura consolidar sua base e avançar sobre segmentos ainda indecisos.
O jogo, portanto, está longe de terminado.
E há uma peça que pode entrar em campo na reta final: o debate da TV Globo, marcado para 1º de outubro. Será, segundo a análise da Quaest reproduzida pelo g1, o primeiro confronto direto entre Lula e Flávio nesta eleição e um possível momento relevante para os eleitores ainda indecisos.
No meio desse campo de disputa está sua excelência, o eleitor brasileiro.
É ele quem vai decidir.
Não o instituto de pesquisa. Não o comentarista. Não o marqueteiro. Não a militância de direita ou de esquerda.
O eleitor.
E é justamente por isso que esta eleição merece ser tratada com seriedade. O Brasil não estará escolhendo apenas um nome para ocupar o Palácio do Planalto. Estará escolhendo entre propostas, experiências de governo, prioridades econômicas e diferentes visões sobre o papel do Estado.
10, 9, 8, 7...
A contagem regressiva começou.
Agora, cada promessa terá de enfrentar os números. Cada discurso terá de enfrentar os fatos. E cada eleitor terá, diante da urna, a responsabilidade de decidir o que considera melhor para o Brasil.
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