
O Supremo Tribunal Federal corre o risco de transmitir ao cidadão a imagem de uma instituição em que uma decisão de um ministro pode ser desfeita, em poucas horas, por outro ministro. Não se trata de dizer que ministros não possam divergir — isso faz parte do Judiciário. O problema é quando decisões sucessivas, dentro da própria Corte, produzem a sensação de insegurança e falta de coerência.
E o ministro André Mendonça tem aparecido no centro de episódios desse tipo.
O caso envolvendo a Polícia Federal é um exemplo emblemático.
Em 8 de setembro de 2026, Mendonça determinou o afastamento do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência, Leandro Almada, no contexto das investigações relacionadas ao Banco Master. A decisão foi submetida à Segunda Turma do STF e chegou a formar maioria pela manutenção do afastamento: Luiz Fux e Nunes Marques acompanharam Mendonça, enquanto Gilmar Mendes pediu vista, interrompendo o julgamento.
No dia seguinte, porém, veio a reviravolta.
Em 9 de setembro, o ministro Flávio Dino determinou a reintegração dos dois dirigentes. Entre os argumentos apresentados, apontou “atropelos processuais” e questionou a legitimidade do partido Novo para pedir, naquele processo criminal, o afastamento de uma autoridade pública.
E a história ainda teve um terceiro capítulo.
Horas depois, o presidente do STF, Edson Fachin, suspendeu tanto a decisão de Mendonça quanto a de Dino, determinando que os dois diretores permanecessem nos cargos por força de sua própria liminar e dando prazo para manifestação de Andrei Rodrigues.
Ou seja: Mendonça afasta. Dino reintegra. Fachin suspende as duas decisões.
Isso é divergência jurídica legítima? Pode ser.
Mas também é legítimo perguntar: que mensagem uma sequência dessas transmite para quem está do lado de fora do Supremo?
E o episódio voltou a se repetir agora, em outro contexto.
Em 25 de setembro, André Mendonça, desta vez no Tribunal Superior Eleitoral, determinou a remoção de 1.125 publicações que associavam falsamente o senador Flávio Bolsonaro a uma suposta iniciativa para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. Mendonça classificou como inverídico o núcleo factual dessa associação.
Neste domingo, 27 de setembro, Flávio Dino derrubou essa decisão e determinou o restabelecimento das publicações. O argumento central foi a proteção à liberdade de expressão e a avaliação de que não haveria, naquele conteúdo específico, elementos suficientes para justificar uma medida tão grave sem instrução processual adequada.
E aqui está o ponto que merece discussão.
Não é simplesmente uma questão de gostar de Mendonça ou de Dino. É uma questão de coerência institucional.
Se uma postagem contém uma informação falsa sobre um candidato, até onde vai a liberdade de expressão? E quando a falsidade é eleitoralmente relevante, qual deve ser o limite da intervenção judicial?
O debate fica ainda mais sensível porque estamos em pleno processo eleitoral.
Há, portanto, uma pergunta inevitável: o STF está aplicando critérios uniformes ou decisões semelhantes estão recebendo tratamentos diferentes conforme o caso, o ministro ou o personagem envolvido?
Essa é uma crítica que pode ser feita e debatida. Mas é importante separar fato de interpretação. Não há, nos elementos consultados, comprovação de que as decisões de Dino tenham sido tomadas com o propósito de favorecer Lula ou prejudicar Flávio Bolsonaro. Essa é uma interpretação política que precisaria ser sustentada por evidências específicas, e não simplesmente presumida.
O que é fato é que Flávio Dino foi indicado por Lula para o STF em novembro de 2023, depois de ter sido ministro da Justiça e Segurança Pública no governo petista, e tomou posse na Corte em fevereiro de 2024.
Também é fato que o cenário eleitoral mudou e hoje apresenta uma disputa bastante apertada entre Lula e Flávio Bolsonaro. Uma pesquisa Palver divulgada em 21 de setembro mostrou Flávio com 42% e Lula com 41% no primeiro turno, diferença dentro da margem de erro de 2,8 pontos percentuais. Outros levantamentos, porém, apresentaram números diferentes, inclusive com Lula à frente.
Portanto, dizer que Flávio “já está vencendo” ou que estaria prestes a ganhar no primeiro turno seria ir além do que as pesquisas permitem afirmar neste momento.
Mas uma coisa é inegável: a eleição está apertada, e cada decisão judicial envolvendo candidatos ganha uma dimensão política muito maior.
É justamente por isso que o Supremo precisa ter cuidado redobrado.
Porque quando um ministro desfaz a decisão de outro, e depois um terceiro ministro interfere novamente, o cidadão comum não enxerga apenas uma discussão técnica entre juristas.
Enxerga uma Corte dividida.
E quando a Corte que deveria transmitir segurança jurídica passa a transmitir dúvidas sobre a própria coerência de suas decisões, abre-se espaço para a desconfiança.
O Supremo não pode parecer uma “Casa de Mãe Joana”.
Não porque ministros não possam discordar.
Mas porque, numa democracia, divergência é legítima; insegurança jurídica, não.
PODER PELO PODER? Perigo mora ao lado?
INSTITUTO OPINAR Nova pesquisa Opinar mostra Ciro Nogueira à frente na disputa pelo Senado no Piauí
RENOVAÇÃO POLÍTICA Da feira à política: Raimundo Sousa aposta na experiência para chegar à Assembleia
MUNICIPALISMO Emendas fortalecem municipalismo, e Ciro Nogueira transforma recursos em presença nos municípios do Piauí
ZONA SUDESTE Joel e Ciro mantêm contato direto com o eleitor em carreata quilométrica pelas ruas do Dirceu
CONTAGEM REGRESSIVA “Tá chegando a hora”, diz Joel a eleitor durante mega carreata com Ciro no Dirceu
PARA TODOS OS GOSTOS Festival de pesquisas eleitorais: Piauí está entre os Estados com maior número de levantamentos registrados
N.S. DA FAKE NEWS A mentira tem perna curta. Mas, quando chega ao Planalto, deixa um estrago grande
TENTÁCULOS Até tu, Brandão? Caso Roberta Luchsinger alcança o Maranhão e levanta perguntas sobre outros Estados Mín. 26° Máx. 38°