
A mentira tem perna curta. Mas, em eleição, às vezes ela corre mais rápido do que a verdade.
Foi exatamente o que aconteceu com a história de que Flávio Bolsonaro pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.
A informação era falsa. E não foi apenas a campanha do candidato que disse isso.
O próprio Tribunal Superior Eleitoral determinou a retirada de publicações sobre o assunto e classificou como “notoriamente inverídica” a associação de Flávio ou de sua família a qualquer iniciativa para retirar da santa o título de padroeira do Brasil. O projeto de lei utilizado para alimentar a narrativa havia sido apresentado em 2007 por outro parlamentar e arquivado em 2008, quando Flávio sequer tinha atuação no Congresso Nacional.
A GloboNews, que havia apresentado a informação de maneira equivocada, também se retratou.
Mas aí vem o detalhe que transforma uma fake news em um problema político de outra dimensão.
O boato já tinha cumprido sua missão.
Segundo a Folha, a narrativa chegou a ser explorada publicamente pelo vice-presidente Geraldo Alckmin e pela primeira-dama Janja, enquanto a campanha de Flávio corria para conter os danos. A reportagem também registrou que aliados do candidato afirmam ter identificado dezenas de perfis tentando impulsionar a história nas redes. Essa última informação, porém, é uma alegação da campanha e não equivale, por si só, à comprovação de uma operação coordenada.
E não se trata de um ambiente eleitoral em que apenas um lado está recorrendo à Justiça.
Na mesma semana, a coligação de Lula apresentou cinco ações ao TSE contra peças da campanha de Flávio, alegando descontextualização e desinformação e pedindo, entre outras medidas, suspensão de propagandas e direito de resposta.
Ou seja: a eleição entrou numa verdadeira guerra de narrativas.
Mas o episódio de Nossa Senhora Aparecida tem uma peculiaridade.
A informação falsa passou por alguém que trabalha dentro da estrutura de comunicação da Presidência da República.
George Marques, coordenador-geral de Estratégia e Informação da Secretaria de Comunicação Social da Presidência, republicou no X uma mensagem que, além de insistir na falsa associação entre Flávio e Nossa Senhora Aparecida, orientava os usuários a não divulgarem a retratação e a continuarem espalhando o conteúdo.
A postagem foi apagada.
Questionado pelo Poder360, Marques afirmou que não concordava com o conteúdo e disse não se lembrar de ter feito a republicação. Segundo ele, caso tenha ocorrido, teria sido um erro involuntário, porque estaria republicando outras mensagens em sequência.
E é justamente aqui que começa a parte mais interessante — e que merece investigação, não palpite.
Se foi um erro, de onde veio a informação?
Como aquele conteúdo chegou ao servidor?
Quem publicou originalmente?
Quem começou a espalhá-lo?
Por que a narrativa ganhou força justamente naquele momento?
E, principalmente: como uma informação falsa sobre um candidato à Presidência foi parar na timeline de um funcionário cuja função, dentro do governo, está diretamente ligada à estratégia e à informação da comunicação presidencial?
São perguntas legítimas.
Não significam, por si só, que exista uma operação clandestina dentro do Palácio do Planalto. Até o momento, não há prova pública apresentada de que o episódio faça parte de um esquema coordenado pelo governo.
Mas também seria precipitado encerrar o assunto com um simples “foi sem querer”.
A própria notícia-crime apresentada pela campanha de Flávio sustenta que houve republicações sucessivas e pede a preservação dos registros digitais e a apreensão de equipamentos para esclarecer o que ocorreu. A defesa afirma ainda que uma das mensagens compartilhadas orientava expressamente que a retratação não fosse divulgada e que a informação falsa continuasse circulando.
É exatamente para responder a essas perguntas que uma investigação serviria.
Não para provar antecipadamente uma conspiração.
Não para transformar um servidor em culpado antes de qualquer apuração.
Mas para descobrir se foi realmente um clique acidental, como ele afirma, ou se havia uma cadeia anterior de produção e distribuição daquela informação.
Porque existe uma diferença enorme entre receber uma fake news, acreditar nela e compartilhá-la por engano — e receber uma informação que já estava sendo desmentida, compartilhar uma mensagem pedindo que a retratação fosse ignorada e recomendar que o boato continuasse circulando.
São situações completamente diferentes.
E essa diferença precisa ser esclarecida.
A história de Nossa Senhora Aparecida também revela algo maior sobre a eleição de 2026: a religião virou uma poderosa arma narrativa.
Não é a primeira vez que uma mentira envolvendo Nossa Senhora é utilizada em disputa eleitoral.
Em 2018, Jair Bolsonaro também foi alvo de falsas informações relacionadas à imagem da santa. Agora, oito anos depois, a mesma fórmula reaparece, desta vez com Flávio no centro da história.
A receita é conhecida: pega-se um assunto emocionalmente poderoso, acrescenta-se um adversário político, mistura-se religião com medo e deixa-se a internet fazer o resto.
Depois, quando a verdade aparece, o estrago já está feito.
É o velho problema da política digital: a mentira precisa de segundos; a verdade precisa de explicação.
E explicação nunca viraliza tanto quanto escândalo.
Flávio Bolsonaro pode ser criticado por suas posições, por suas declarações, por seu projeto político ou por qualquer episódio de sua vida pública.
Isso faz parte da democracia.
O que não pode fazer parte de uma eleição é atribuir a um candidato uma proposta que ele não apresentou e que, segundo o TSE, é falsa.
E muito menos se pode concluir, sem investigação, que todo episódio desse tipo seja obra de um “escritório do ódio” instalado dentro do Planalto.
Mas existe uma pergunta que permanece de pé:
se George Marques realmente compartilhou o conteúdo por engano, quem colocou aquela informação falsa diante dele?
Essa talvez seja a pergunta mais importante de toda essa história.
Porque descobrir quem apertou o botão é relativamente fácil.
Descobrir de onde veio a mentira é que pode ser o verdadeiro problema.
E, em política, quando a mentira chega até dentro do Palácio do Planalto, talvez já não seja suficiente simplesmente apagá-la.
É preciso saber quem escreveu, quem entregou, quem compartilhou e quem se beneficiou dela.
O resto é investigação.
E investigação não se faz com narrativa.
Faz-se com fatos.
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