
A estrela do PT sabe. Os aliados sabem. O Congresso sabe. O Planalto sabe.
E Lula também sabe.
A Medida Provisória que acaba com as bets no Brasil pode até produzir um enorme efeito político, mas está longe de ter sua aprovação garantida pelo Congresso. Segundo o colunista Cláudio Humberto, parlamentares aliados de Lula ouvidos sob reserva avaliam que a MP tem grandes chances de não ser votada e caducar. Alguns dizem, inclusive, que o próprio Palácio do Planalto poderia não demonstrar empenho suficiente para aprová-la.
E aqui começa a parte mais interessante da história.
No marketing político, a jogada foi genial.
Lula identificou um problema que dói no bolso, destrói famílias e provoca rejeição crescente entre os brasileiros: o avanço das apostas eletrônicas.
E decidiu assumir o discurso de quem agora quer acabar com aquilo que, até pouco tempo atrás, seu próprio governo ajudou a regulamentar.
É preciso lembrar: a Lei nº 14.790/2023, sancionada por Lula, regulamentou as apostas de quota fixa, inclusive permitindo apostas sobre eventos esportivos e jogos on-line. A legislação criou o regime de autorização e fiscalização pelo Ministério da Fazenda.
Ou seja: as bets não caíram do céu no governo Lula. O governo participou diretamente da construção do mercado regulado. E agora, às vésperas de uma eleição, o mesmo governo apresenta uma MP para acabar com ele.
Não é pouca coisa.
A medida assinada por Lula em 25 de setembro de 2026 determina o fim da exploração, oferta, intermediação e publicidade das apostas de quota fixa no Brasil. As plataformas autorizadas não podem mais receber novas apostas e têm prazo para encerrar as atividades. Os sites e aplicativos deverão sair do ar a partir de 6 de outubro, conforme o cronograma estabelecido pelo governo.
Só existe um pequeno detalhe no meio dessa grande operação política: Medida Provisória não é lei definitiva. Ela precisa ser apreciada pelo Congresso. E, se não for convertida em lei dentro do prazo constitucional, perde a eficácia.
É justamente aí que aliados de Lula enxergam o problema.
Segundo Cláudio Humberto, do Diário do Poder, parlamentares governistas avaliam que a MP pode caducar sem votação. O texto também teria causado pouca repercussão entre os congressistas, enquanto representantes do setor de apostas já articulam reação no Congresso e no Judiciário.
Então, politicamente, Lula pode ganhar mesmo que a MP não sobreviva.
Se passar, Lula diz que acabou com as bets. Se caducar, pode dizer que tentou.
E eleitoralmente, isso é uma narrativa bastante conveniente.
Esse talvez seja o ponto central. No Brasil, muitas vezes, o fato engatinha enquanto a narrativa corre.
A MP produz manchetes imediatamente. Produz discurso. Produz propaganda. Produz postagem nas redes sociais. Produz a imagem do presidente enfrentando um problema que atinge milhões de famílias.
A discussão sobre o que acontecerá depois fica para o segundo capítulo. E eleição não costuma esperar o segundo capítulo.
Mas existe uma pergunta incômoda: o que acontece se a MP caducar?
As bets voltam? A regulamentação anterior volta a produzir efeitos? O mercado retorna?
E, se voltar, quem explicará ao eleitor que a proibição apresentada como uma grande virada histórica durou apenas alguns meses?
São perguntas legítimas porque a própria regulamentação anterior mostra que o governo já havia escolhido outro caminho.
Existe ainda outro problema. A proibição das bets legais pode não significar o desaparecimento das apostas. Pode significar apenas a migração de parte desse mercado para plataformas clandestinas.
Essa é uma das principais controvérsias em torno da medida. Empresas do setor já estudam reação judicial e política à MP, enquanto o governo sustenta que a proibição é necessária diante dos problemas sociais provocados pelas apostas.
Ou seja: a pergunta não é apenas se as bets legais vão acabar. É saber se o apostador vai simplesmente migrar para o submundo digital.
Porque, se isso acontecer, o governo poderá ter trocado um mercado regulado por um mercado clandestino, no qual a fiscalização é ainda mais difícil.
E aí a operação que nasceu para proteger as famílias poderá produzir um efeito contrário.
Seria um tiro no pé.
É uma hipótese, não uma conclusão. E há quem sustente exatamente o contrário: dentro do PT, o deputado Pedro Uczai defende que a repressão às apostas ilegais pode funcionar por meio do bloqueio de sites e contas bancárias.
Portanto, a questão está longe de ser encerrada.
Agora, uma coisa precisa ser separada da disputa política.
O problema provocado pelas bets existe.
E é grave.
Estudo citado pelo Instituto de Estudos para Políticas de Saúde estimou em R$ 38,8 bilhões por ano os impactos sociais das apostas on-line, incluindo custos associados à saúde. O levantamento também estimou que a arrecadação tributária do setor entre janeiro e setembro de 2025 havia chegado a R$ 6,8 bilhões. O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável contestou a metodologia e os números, argumentando que o estudo utilizou premissas consideradas especulativas e não diferenciou adequadamente operadores legais e ilegais.
Portanto, não é necessário inventar estatísticas para demonstrar o tamanho do problema. Há famílias endividadas. Há pessoas comprometendo renda.
Há relatos de dependência. Há impacto sobre o consumo e sobre o orçamento doméstico.
E o próprio governo passou a tratar o vício em apostas como um problema de saúde pública.
As bets não são brincadeira.
Mas justamente por isso a discussão precisa ser séria. Não pode ser apenas eleitoral.
Aqui está o ponto que Lula terá dificuldade para explicar.
Se as bets são tão nocivas, por que foram regulamentadas?
A Lei 14.790/2023 criou justamente o mercado regulado que agora a MP pretende extinguir.
E há mais.
Em 2023, durante a tramitação da regulamentação das apostas, parlamentares da base do governo votaram contra uma emenda apresentada no Senado que pretendia retirar os cassinos on-line do texto. A informação foi levantada pela CNN Brasil ao reconstituir a votação.
Portanto, a crítica da oposição sobre uma possível incoerência não surgiu do nada. O governo mudou de posição. E mudou justamente quando o calendário eleitoral entrou na reta final.
Isso não prova que a MP tenha sido criada exclusivamente com finalidade eleitoral.
Mas torna absolutamente legítima a pergunta: quanto existe de política pública e quanto existe de estratégia eleitoral nessa mudança de rumo?
Essa talvez seja a pergunta que mais incomoda.
Suponhamos que Lula consiga aprovar a MP. Ou que consiga transformá-la em uma bandeira eleitoral poderosa.
E suponhamos ainda que consiga conquistar mais um mandato. O que garante que as bets não voltarão?
Hoje, a resposta é: nada além da própria legislação que venha a prevalecer. E isso nos leva a outro episódio recente do governo.
A chamada “taxa das blusinhas”, criada para compras internacionais de pequeno valor, também virou objeto de disputa política e econômica. Se uma política pública pode ser criada, modificada ou revogada conforme as circunstâncias, a pergunta sobre sua permanência futura é perfeitamente legítima.
O mesmo raciocínio vale para as bets.
O fim é definitivo ou apenas eleitoral? Essa resposta não está dada.
É impossível afirmar que Lula esteja conscientemente apostando tudo em uma estratégia eleitoral apenas com base na MP. Mas é impossível ignorar o contexto.
A medida foi anunciada às vésperas da eleição. O tema tem forte apelo popular.
As pesquisas mostram preocupação significativa da população com as apostas. E o próprio noticiário político registra que a ofensiva contra as bets entrou no centro da estratégia eleitoral do governo.
Então, não é preciso recorrer a teorias conspiratórias. Basta olhar para o calendário.
A eleição está aí.
E o governo descobriu uma bandeira que conversa diretamente com um problema concreto da população.
Lula pode dizer: "Eu acabei com as bets.”
A oposição pode responder: “Foi ele quem regulamentou.”
O governo pode argumentar: “Era necessário proteger as famílias.”
Os adversários podem perguntar: “Por que só agora?”
O setor pode recorrer à Justiça. O Congresso pode deixar a MP caducar.
E, enquanto tudo isso acontece, milhões de brasileiros continuam enfrentando o problema real: o dinheiro que sai do orçamento familiar e entra no circuito das apostas.
Essa é a parte que não é marketing. É vida real.
Por isso, acabar com as bets pode ser uma política pública legítima e até defendida por quem critica o governo. O problema é transformar uma questão tão séria em simples peça de propaganda eleitoral.
Porque, se a MP caducar, Lula poderá ter ganhado a manchete sem ganhar a batalha.
E se for aprovada, ainda ficará a pergunta sobre o futuro.
As bets desaparecerão definitivamente ou apenas esperarão a próxima eleição?
No Brasil, como se sabe, a narrativa corre na frente, o fato vem atrás — e a conta, quase sempre, chega depois.
E desta vez há um detalhe que pode fazer toda a diferença: o afago eleitoral de hoje pode virar a contradição política de amanhã.
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