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Tecnologia ENGENHARIA APLICADA

Quando a universidade sai da sala de aula e coloca um foguete no céu

Polaris, desenvolvido por estudantes da Universidade de Waterloo, bate recorde mundial e oferece uma lição que vai muito além da engenharia: conhecimento só transforma a realidade quando consegue encontrar a prática

14/09/2026 às 13h13
Por: Douglas Ferreira
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O experimento ocorreu no dia 20 de agosto, em Timmins, Ontário, no Canadá - Foto: Reprodução
O experimento ocorreu no dia 20 de agosto, em Timmins, Ontário, no Canadá - Foto: Reprodução

Há universidades que ensinam engenharia. E há universidades que colocam seus estudantes para fazer engenharia.

A diferença parece apenas semântica. Não é.

No Canadá, estudantes da Universidade de Waterloo acabam de oferecer uma demonstração espetacular do que acontece quando a universidade decide aproximar, de verdade, teoria e prática.

O nome do projeto é Polaris.

No dia 20 de agosto, em Timmins, Ontário, o foguete desenvolvido pela equipe Waterloo Rocketry atingiu 63.497 pés, aproximadamente 19,35 quilômetros de altitude, durante o Launch Canada Challenge. O resultado estabeleceu um novo recorde mundial para o foguete amador de propelente líquido bipropelente de maior altitude, superando a marca anterior de 56.590 pés.

Não é pouca coisa.

O Polaris tem cerca de 5,18 metros de comprimento, pesa aproximadamente 136 quilos completamente abastecido e alcançou, segundo a equipe, velocidade de cerca de 3.108 km/h, equivalente a Mach 2,7. O voo foi concluído com sucesso e o foguete retornou ao solo utilizando seu sistema de paraquedas.

Mas o que realmente deveria chamar a atenção de quem discute educação no Brasil não está nos 19,35 quilômetros.

Está no caminho percorrido até eles.

O foguete não nasceu pronto

O Polaris é resultado de uma trajetória.

Em 2024, a Waterloo Rocketry construiu e lançou o Borealis, o primeiro foguete canadense de propelente líquido bipropelente. Em 2025, veio o Aurora, que chegou a 38 mil pés e se tornou, naquele momento, o segundo foguete amador de propelente líquido mais alto do mundo. O Aurora, entretanto, teve problemas no sistema de recuperação e não foi recuperado.

E aqui está uma das grandes lições.

O fracasso também entrou no currículo.

A equipe não tratou a perda do Aurora como o fim do projeto. Tratou como aprendizado.

O Polaris incorporou melhorias no motor, na arquitetura do veículo e, especialmente, no sistema de recuperação, que foi reforçado para suportar até dez vezes as forças esperadas durante a abertura dos paraquedas.

É assim que a ciência avança.

Não apenas acertando.

Mas errando, medindo, corrigindo, testando novamente e tentando outra vez.

A universidade como laboratório do mundo real

A Universidade de Waterloo não construiu esse modelo ontem.

A instituição nasceu, em 1957, com a educação cooperativa como um dos pilares de sua proposta. Atualmente, a universidade afirma possuir mais de 26 mil estudantes ativos em programas de co-op, distribuídos por mais de 120 programas, com uma rede superior a 8 mil empregadores em mais de 70 países.

Na Engenharia, os estudantes alternam períodos acadêmicos e de trabalho. A universidade informa que seus alunos de engenharia podem acumular até dois anos de experiência profissional durante a graduação.

Ou seja: a experiência profissional não aparece apenas depois do diploma.

Ela faz parte da formação.

E isso muda tudo.

O estudante não fica condenado a passar anos decorando fórmulas para descobrir, somente depois de formado, para que elas servem.

Ele aprende a fórmula.

Aplica.

Erra.

Testa.

Corrige.

Volta para a teoria.

E tenta novamente.

É a teoria encontrando a realidade.

É aí que entra a práxis

A palavra é antiga, mas continua absolutamente atual: práxis.

Não se trata simplesmente de trocar aula por oficina, livro por laboratório ou professor por estágio.

Práxis é mais profunda.

É estabelecer uma relação permanente entre conhecimento e ação. A teoria orienta a prática. A prática desafia a teoria. E a experiência retorna à reflexão, produzindo conhecimento novo.

O próprio modelo canadense de Work-Integrated Learning (WIL) trabalha nessa direção. A CEWIL Canada define a aprendizagem integrada ao trabalho como uma modalidade de educação experiencial que integra formalmente os estudos acadêmicos a experiências de qualidade em ambientes profissionais ou de prática, envolvendo instituição de ensino, organização parceira e estudante.

Não é estágio para cumprir tabela.

Não é visita técnica para tirar fotografia.

Não é laboratório em que o resultado já está previamente conhecido.

É colocar o estudante diante de um problema real.

E cobrar dele uma solução.

O Brasil precisa olhar para isso

Aqui está o ponto que merece discussão.

O Brasil possui excelentes universidades, pesquisadores talentosos e estudantes extraordinários. O problema não é falta de inteligência.

É, muitas vezes, a distância entre aquilo que se ensina e aquilo que se consegue realizar.

Quantos estudantes passam anos dentro de uma universidade sem construir um produto?

Quantos terminam cursos sem jamais participar de um projeto multidisciplinar de verdade?

Quantos aprendem empreendedorismo sem abrir uma empresa?

Quantos estudam engenharia sem projetar, fabricar, testar e destruir um protótipo?

Quantos aprendem tecnologia sem colocar tecnologia para resolver um problema concreto?

E quantos trabalhos acadêmicos terminam numa gaveta depois de cumprirem sua função burocrática?

A pergunta é incômoda.

Mas precisa ser feita.

Para que serve uma universidade que produz conhecimento incapaz de atravessar seus próprios muros?

Waterloo mostra que é possível

O caso da Rocketry é ainda mais interessante porque não envolve apenas estudantes de engenharia.

A equipe reúne alunos de diferentes áreas. Em 2026, a própria Universidade de Waterloo informou que o grupo tinha cerca de 100 integrantes, dos primeiros aos últimos anos, vindos de Engenharia, Matemática, Artes e Ciências.

Isso é universidade.

Gente diferente trabalhando sobre o mesmo problema.

E o problema não é fictício.

É um foguete que precisa funcionar.

Porque, quando o foguete está na plataforma, não existe nota de prova que faça o motor funcionar.

Não existe discurso.

Não existe PowerPoint.

Não existe “quase”.

Ou funciona.

Ou não funciona.

Essa é uma das maiores virtudes da aprendizagem baseada em projetos: a realidade não aceita maquiagem.

E há ainda uma lição maior

O Polaris não surgiu de um grupo que acertou de primeira.

Ele é o terceiro foguete líquido da trajetória recente da equipe.

Borealis.

Aurora.

Polaris.

Cada um carregando o conhecimento acumulado pelo anterior.

A própria equipe destaca que seu sucesso resulta de anos de melhorias incrementais e da transferência de conhecimento entre gerações de estudantes.

Isso é construir uma cultura acadêmica.

O aluno que chega não começa do zero.

Ele recebe aquilo que os outros aprenderam.

Melhora.

Passa adiante.

E o próximo começa um pouco mais alto.

Até que, um dia, o foguete ultrapassa 19 quilômetros.

A pergunta que fica para o Brasil

Não se trata de copiar o Canadá.

Cada país possui sua realidade, seus recursos, suas universidades e seus desafios.

Trata-se de compreender o princípio.

Universidade não pode ser apenas lugar de transmissão de conhecimento.

Precisa ser lugar de produção, experimentação, criação e solução.

O estudante precisa ser colocado diante de problemas que não vêm com resposta no final da apostila.

Precisa aprender a trabalhar em equipe.

A lidar com orçamento.

A cumprir prazo.

A enfrentar falhas.

A defender decisões técnicas.

A construir.

A testar.

A desmontar.

A reconstruir.

E, sobretudo, a compreender que conhecimento não é patrimônio individual.

É ferramenta de transformação.

O caso de Waterloo mostra que a chamada educação tecnológica de alto nível não depende apenas de laboratórios sofisticados ou de bilhões em investimentos.

Depende também de uma cultura acadêmica que permita ao estudante fazer.

Fazer com método.

Fazer com orientação.

Fazer com responsabilidade.

Fazer com ciência.

E aprender com aquilo que não funcionou.

O foguete Polaris chegou a 19,35 quilômetros.

Mas talvez a maior altitude alcançada não tenha sido a do foguete.

Foi a ideia de que um estudante pode deixar de ser apenas espectador do conhecimento e tornar-se seu próprio construtor.

E talvez essa seja a verdadeira lição canadense.

Quando a teoria encontra a prática, a universidade deixa de apenas ensinar como o mundo funciona. Ela começa a ajudar a construí-lo.

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