
O caso de Gilson Alberto dos Santos Gruginskie, deputado do Partido dos Trabalhadores (PT), que foi denunciado por estupro, parece ter passado quase despercebido pela grande mídia. Mesmo com a gravidade da acusação – um crime que o PT frequentemente usa como munição contra seus adversários – o silêncio em torno do caso é ensurdecedor. A acusação foi formalizada após uma denúncia feita ao Ministério Público pela advogada Ariane Chagas Leitão, que relatou ter sido abusada por Gruginskie durante uma confraternização da bancada do PT em dezembro de 2022, em um sítio na zona sul de Porto Alegre.
A pergunta que muitos fazem é por que essa notícia não tomou as manchetes nacionais como outros casos de violência sexual. Será o fato de Gruginskie ser um parlamentar do PT, partido que historicamente levanta as bandeiras feministas e identitárias? Ou talvez seja a preocupação de proteger um aliado político em tempos de polarização? A falta de manifestações contundentes de figuras importantes do partido, como a presidente Gleisi Hoffmann e a deputada Maria do Rosário, conhecida por sua defesa dos direitos humanos, levanta ainda mais dúvidas sobre a seletividade das pautas progressistas.
A acusação é séria e, caso confirmada, não só manchará a carreira política de Gruginskie, mas também colocará o partido em uma posição difícil, pois a defesa de causas como o combate à violência de gênero faz parte do DNA da legenda. O que dizer da postura de um partido que sempre exigiu consequências rápidas e severas quando o acusado estava do outro lado do espectro político?
O relato de Ariane é contundente: segundo ela, Gruginskie a violentou após insistir em oferecer uma carona durante a confraternização. No caminho, ele teria feito avanços indesejados e carícias forçadas. O Ministério Público, apoiado por depoimentos de outras mulheres que também alegaram ter sido assediadas pelo deputado, não teve dúvidas em denunciá-lo por estupro. O juiz da 13ª Vara Criminal de Porto Alegre aceitou a denúncia, indicando que havia indícios suficientes para levar o caso adiante.
Gruginskie, agora réu, tem 10 dias para apresentar sua defesa. Enquanto isso, o deputado teve sua filiação ao partido suspensa e foi exonerado da bancada do PT na Assembleia Legislativa. O caso não só afeta diretamente sua carreira política, mas pode ter ramificações graves para o próprio PT, que terá que lidar com as contradições entre seus discursos públicos e a necessidade de enfrentar internamente casos de violência.
O silêncio de figuras proeminentes do PT, que em outras circunstâncias estariam na linha de frente condenando a violência de gênero, é perturbador. Será que a defesa intransigente das pautas feministas e identitárias vale apenas para adversários políticos? A ala feminista do partido ainda não se manifestou de forma contundente, e a expectativa é que a pressão aumente para que lideranças como Maria do Rosário, que disputa a prefeitura de Porto Alegre, tomem uma posição clara. Afinal, o combate ao machismo e à violência sexual deveria transcender partidos e ideologias.
O caso de Gilson Gruginskie lança luz sobre uma prática perigosa: a relativização de crimes graves quando cometidos por membros da própria bolha política. Se a justiça deve ser cega, a política não pode ser.
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