
O Brasil parece ter desenvolvido uma curiosa economia da atenção: quando falta talento, sobra polêmica. Em vez de obras memoráveis, surgem declarações capazes de dominar as redes sociais por alguns dias. O importante deixou de ser produzir algo relevante; basta produzir repercussão.
O caso de Manoel Gomes talvez seja um dos exemplos mais emblemáticos desse fenômeno. O eterno "Caneta Azul" transformou um único sucesso viral em uma carreira sustentada muito mais pela curiosidade do público do que propriamente pelo talento artístico. É difícil apontá-lo como um grande cantor ou um grande intérprete. Ainda assim, continua ocupando espaço na mídia.
Agora, ele e sua futura esposa voltam aos holofotes com mais um capítulo dessa novela. Mary Jane, influenciadora e criadora de conteúdo adulto, afirmou que pretende gravar vídeos de sexo explícito com Manoel Gomes após o casamento, caso ele concorde. O cantor não descartou a possibilidade e afirmou não ver qualquer problema na profissão exercida pela companheira.
A declaração chama ainda mais atenção porque, poucos dias antes, o casal havia anunciado que pretendia manter relações sexuais apenas depois do casamento, por convicções pessoais. A mudança de discurso alimentou as suspeitas de muitos internautas de que o relacionamento não passe de uma estratégia cuidadosamente planejada para gerar engajamento e permanecer em evidência.
Moralismo à parte, a pergunta inevitável é outra: trata-se de uma pobre jogada de marketing ou simplesmente acabou o juízo daquele que é cantor sem saber cantar e artista sem dominar arte alguma?
Na era das redes sociais, a lógica parece simples: quando o talento já não é suficiente para manter os holofotes acesos, a polêmica assume esse papel. O escândalo passa a valer mais do que a obra. A exposição rende mais do que o mérito. E o algoritmo recompensa justamente quem consegue provocar mais reação.
No fim das contas, talvez essa história nem choque tanto. O Brasil parece ter desenvolvido uma estranha tolerância ao absurdo. Vive-se em um país onde o debate público é frequentemente dominado por episódios que desafiam o bom senso. Um homem biológico preside a Comissão da Mulher da Câmara dos Deputados; o ministro da Casa Civil, Rui Costa, afirmou que o narcotráfico é um dos maiores empregadores de jovens na Bahia; e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou que "os traficantes são vítimas dos usuários", frase da qual posteriormente afirmou ter sido "mal colocada".
Diante de um cotidiano em que a política e o entretenimento parecem disputar quem produz a maior controvérsia, o anúncio de que Manoel Gomes e sua futura esposa cogitam gravar um filme pornográfico após o casamento deixa de causar espanto. Para além da moral, quando a repercussão vale mais que o talento e a polêmica rende mais que o mérito, um filme erótico a mais ou a menos dificilmente altera o cenário.
Afinal, a sensação de muitos brasileiros é a de que o espetáculo permanente substituiu o debate sério. O país parece viver uma realidade em que a vulgarização da vida pública virou rotina, transformando escândalos, provocações e controvérsias em instrumentos de promoção pessoal. Nesse ambiente, a notícia do dia rapidamente substitui a de ontem, e a repercussão tornou-se um fim em si mesma.
LITURGIA XVI Domingo do Tempo Comum
METÁSTASE Morte cerebral de Jacinto Barbosa Lay Chaves encerra batalha contra um melanoma com metástase cerebral
UMA MEIA VERDADE Será verdade que homem processa a si mesmo, perde a ação, é condenado a pagar US$ 5 milhões a ele mesmo e acaba preso por não pagar a dívida? Mín. 18° Máx. 37°