
Está provado que Lula respeita Jaques Wagner. E que uma amizade construída ao longo de mais de quatro décadas ainda tem peso dentro do PT e do Palácio do Planalto. Sim, Lula já demitiu ministros e mais ministros por telefone. Houve até quem deixasse o cargo sem sequer receber uma ligação de agradecimento. Mas Jaques Wagner é Jaques Wagner.
Ele não é um petista qualquer. É um dos quadros mais graduados do partido, conhece os bastidores do poder como poucos e sabe muito. Talvez saiba até demais. E quem acompanha sua trajetória sabe que ele não costuma ter papas na língua.
Tanto que o recado já foi dado. O senador baiano não demonstra disposição para entregar espontaneamente a liderança do governo no Senado. Se a mudança realmente acontecer, Lula terá que convencê-lo. E convencer é uma das artes que ajudaram o presidente a sobreviver politicamente por décadas.
Agora chegou a hora de provar que não perdeu o tempo da negociação, que continua sabendo ouvir, dialogar e construir saídas. Porque com Jaques Wagner a conversa será diferente.
E esse tradicional "pé de orelha" político pode acontecer já nesta quarta-feira (24), quando Lula retorna a Brasília e deve tratar pessoalmente do futuro do aliado.
Nos bastidores do Planalto, a avaliação predominante é que a permanência de Wagner na liderança ficou muito mais difícil após a operação da Polícia Federal relacionada ao caso Banco Master. O desgaste político aumentou e setores do governo avaliam que a substituição seria uma forma de reduzir danos.
Mas o problema é justamente quem está sendo substituído.
Jaques Wagner não é apenas líder do governo. É um dos mais antigos aliados de Lula, ex-governador da Bahia, ex-ministro e figura central nas articulações petistas. Tirá-lo do cargo sem uma construção política cuidadosa pode gerar mais desgaste do que a própria permanência.
Por isso, a estratégia considerada mais provável é a de uma saída negociada, sem anúncio traumático e sem exposição pública do presidente. Seria uma forma de preservar a relação pessoal e evitar a imagem de abandono de um aliado histórico.
O próprio Wagner já deixou claro que não pretende pedir para sair. Disse, inclusive, que Lula sequer abordou esse assunto na conversa que tiveram após a operação da PF.
Enquanto isso, Brasília já especula sobre possíveis substitutos. O nome mais forte nos corredores do poder é o do senador Camilo Santana (PT-CE), visto por interlocutores do presidente como alguém capaz de manter a interlocução política no Senado sem criar novos focos de tensão.
Mas, antes de discutir sucessão, Lula terá que resolver o presente.
E o presente atende pelo nome de Jaques Wagner.
Porque, em política, cargos podem ser substituídos. Amizades de quarenta anos, nem sempre.
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