
A política tem dessas coisas. Quando todo mundo acha que a novela chegou ao último capítulo, o roteiro muda, o personagem principal sai de cena e o autor inventa outro final.
Até o último sábado, o ministro Wellington Dias dava como praticamente resolvidos os obstáculos para que sua filha, Iasmin Dias, anunciasse oficialmente a decisão de disputar a primeira suplência ao Senado na chapa do deputado Júlio César de Carvalho Lima, do PSD. O discurso era de que faltavam apenas alguns ajustes pessoais, profissionais e familiares. Era questão de tempo.
Pois o tempo chegou. E a resposta foi não.
A moça deu marcha à ré, puxou o freio de mão e recusou o convite. Simples assim. Se foi surpresa para a classe política, imagine para quem acompanhava os bastidores e já tratava sua indicação como fato consumado.
A partir daí, pelo menos três conclusões podem ser tiradas.
A primeira é que Iasmin talvez realmente não tenha herdado o vírus da política que contaminou boa parte da família. Pode ser que, diferente do pai, ela simplesmente não tenha apetite para a disputa eleitoral.
A segunda hipótese é que todo o movimento em torno de seu nome tenha funcionado como uma espécie de balão de ensaio. Primeiro para medir a temperatura dentro do PT. Depois para testar a receptividade da opinião pública.
E a terceira, talvez a mais intrigante, é que nem todos dentro do grupo governista estariam tão convencidos assim sobre o sucesso eleitoral da chapa de Júlio César. Em política, ninguém gosta de estrear perdendo. Queimar um nome considerado estratégico logo na primeira disputa nunca é um bom negócio.
Seja qual for a explicação, uma coisa é certa: a desistência da filha do ministro mudou o cenário. Embaralhou o tabuleiro. Agora muda tudo.
E muda porque não se tratava de qualquer nome.
Estamos falando justamente da peça que faltava para completar um projeto político familiar que vem sendo construído há anos.
O hoje velho "Índio", que um dia surgiu como o homem que enfrentaria as velhas oligarquias piauienses, parece cada vez mais empenhado em construir a sua própria.
Primeiro veio a ascensão política da esposa, dona Rejane Dias. Depois, a chegada dela ao Tribunal de Contas do Estado. Em seguida, a tentativa de emplacar o filho como vice na chapa governista. Não deu certo. Mas o herdeiro segue firme e já se movimenta para disputar uma vaga na Assembleia Legislativa.
Aliás, isso tá gerando uma ciumeira danada. Dentro e fora do PT. A base está em polvorosa. E já se fala em invasão de redutos, numa espécie de fogo amigo. É claro que Dr. Vinícius Dias nega. Não que seja crime. Mas precisa ser conversado com o "dono" do reduto. Afinal, é conversando que a gente se entende.
Agora restava a filha. E não qualquer cargo.
O Senado da República. Seria a cereja do bolo. Mas a cereja resolveu não entrar na sobremesa.
A decisão de Iasmin desmonta uma construção que parecia encaminhada e devolve o PT ao ponto de partida.
Afinal, quem ocupará a vaga?
A suplência continua reservada ao PT?
Júlio César permanece obrigado a buscar um nome dentro da legenda do governador?
Ou a desistência abre caminho para novas composições partidárias?
São perguntas que ninguém consegue responder neste momento.
O fato é que a saída de cena de Iasmin recoloca em evidência outros nomes, especialmente o da ex-vereadora petista Rosário Bezerra, que recebeu apoio explícito da própria arquiteta. O vereador Dudu também está no páreo e sonha com a indicação de seu nome.
Enquanto isso, Wellington Dias assiste a mais um capítulo de um projeto político que parecia cuidadosamente desenhado.
Talvez seja cedo para afirmar que houve derrota. Talvez tenha sido apenas um recuo estratégico.
Mas uma coisa é inegável: o tabuleiro mudou.
E, na política, quando uma peça importante sai do jogo, ninguém permanece exatamente no mesmo lugar.
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