
A discussão sobre o fim da escala 6x1, que já vinha mobilizando sindicatos, trabalhadores e setores empresariais, agora entrou definitivamente no terreno da disputa política entre o Senado e o governo federal.
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, deixou claro nos bastidores que não pretende acelerar a tramitação da PEC neste momento. Mais do que isso: sinalizou que uma pressão excessiva do governo para votar a proposta pode ter um efeito colateral perigoso para o Palácio do Planalto.
Qual seria esse efeito? A abertura de uma verdadeira “pauta-bomba” no Senado.
Segundo relatos de governistas, Alcolumbre apresentou uma lista de projetos que tratam de pisos salariais, reajustes de categorias e mudanças em jornadas de trabalho. São propostas defendidas por diferentes corporações e categorias profissionais e que, se aprovadas em bloco ou em sequência, poderiam gerar despesas bilionárias para a União, estados e municípios.
O recado político foi direto: se o governo insistir em pressionar pela PEC da 6x1, o Senado pode começar a pautar também outras matérias de forte impacto fiscal.
No plenário, Alcolumbre praticamente verbalizou esse temor. Ele afirmou que existem 31 projetos relacionados a jornadas e pisos salariais e alertou para o risco de o Congresso aprovar medidas populares em ano eleitoral sem considerar quem pagará a conta depois.
A fala tem um duplo sentido político.
De um lado, o presidente do Senado tenta se posicionar como alguém preocupado com responsabilidade fiscal e equilíbrio institucional. De outro, usa o tema como instrumento de pressão sobre o governo Lula, num momento em que a relação entre Executivo e Senado atravessa turbulências.
Os atritos com o líder do governo no Senado, Jaques Wagner, seguem mal resolvidos, e aliados de Alcolumbre afirmam que ele espera uma aproximação mais direta do próprio presidente Lula, e não apenas de intermediários políticos.
Na prática, a PEC do fim da 6x1 virou mais do que uma discussão trabalhista. Ela se transformou em peça de negociação política entre Planalto e Senado.
E há outro ponto importante: em ano pré-eleitoral, propostas que ampliam direitos trabalhistas ou criam pisos salariais costumam ganhar forte apelo popular. Poucos parlamentares querem votar contra medidas vistas como benefício ao trabalhador ou a categorias organizadas. O problema é que muitas delas têm impacto permanente sobre as contas públicas.
É por isso que o governo teme o chamado efeito dominó: aprovar ou acelerar uma pauta pode estimular dezenas de outras reivindicações corporativas represadas no Congresso.
Enquanto isso, Alcolumbre mantém a PEC em “banho-maria”, sem enviar a proposta para a Comissão de Constituição e Justiça e sem assumir qualquer calendário de votação.
O resultado é um impasse clássico de Brasília: uma pauta popular nas ruas, um governo pressionando por avanço político e um Senado usando o controle da agenda como moeda de negociação institucional.
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