
Não. Eu não votei em Rafael Fonteles em 2022. Mas confesso que torci. E continuo torcendo. Afinal de contas, quando o comandante do barco acerta a rota, todo mundo chega mais rápido ao destino, com direito a um lanchinho a bordo. E, quando erra, meu amigo, molha o pé de todo mundo. E ai de quem não sabe nadar.
Terminada a eleição, fiz o que todo cidadão deve fazer: reconhecer o resultado e acreditar nas promessas vendidas no palanque. E não eram poucas. Havia promessas para todos os gostos.
O Piauí seria administrado por um jovem, técnico, empresário bem-sucedido e ligado justamente à área que mais transforma uma sociedade: a educação. O Piauí iria viver uma revolução.
Era um currículo de fazer qualquer eleitor pensar: "agora vai".
Mas eis que o tempo passou. Três anos e meio depois, com o governo entrando na reta final, a empolgação inicial parece ter dado lugar àquela sensação de quem comprou uma passagem para Dubai e desembarcou na rodoviária de Picos.
O problema é que o barco começou a fazer água cedo. Muito cedo.
A transposição do Rio Parnaíba virou conversa de mesa de bar. O tão falado hidrogênio verde parece ter ficado estacionado na pista de decolagem. A empresa abriu o olho e "xispa". Zarpou. Pegou o beco.
E o Porto Piauí, que seria a porta de entrada para um futuro grandioso, até agora rende mais renderizações e apresentações em PowerPoint do que navios atracados. Quem acreditou está, literalmente, a ver navios. No sentido figurado, é claro.
Como se diz lá pelas bandas do sertão: conversa para boi dormir.
Mas quem parece não estar dormindo mesmo é o próprio governo, que vê críticas e cobranças surgirem de todos os lados. E os tais parques empresariais? O de Piripiri ainda rende mais piada do que manchete de desenvolvimento.
E os R$ 14 bilhões anunciados pelo governador? Tá tudo gravado.
Já na saúde, o cenário é daqueles que fazem o cabra rezar para não adoecer.
Tem hospital lutando para manter as portas abertas. Tem paciente enfrentando calor de rachar o juízo, no pingo do meio-dia. Tem enfermaria onde ventilador levado de casa virou quase item de sobrevivência.
E quando sindicato começa a mostrar áudio, vídeo e denúncia documentada, fica difícil dizer que é apenas discurso de oposição. Tá tudo gravado também e viralizando nas redes sociais.
É aquela história: contra fatos, argumentos entram em pane.
Enquanto isso, o governo segue numa maratona de empréstimos. Mês sim, mês também aparece uma nova operação de crédito. Daqui a pouco vão dizer que o Piauí abriu crediário internacional.
Tem empréstimo para cá, empréstimo para lá, empréstimo para acolá. Nos que precisaram de aval do Senado, devido à garantia do governo federal, o senador Magno Malta foi taxativo: "é tanto dinheiro que parece que querem fazer um novo Piauí".
Mas não estão fazendo, não.
E a pergunta que anda circulando nas rodas de conversa é simples: onde foi parar tanta dinheirama?
Tem gente que compara a situação ao sujeito que pega um empréstimo para pagar o outro. Eu não sei se é isso. Mas que a dúvida existe, existe.
E, enquanto os números crescem, cresce também a curiosidade popular.
Qual é, afinal, a grande obra estruturante deste governo?
Não vale responder apenas "estradas". Porque, convenhamos, ninguém vai conseguir convencer que só asfalto explica uma conta bilionária. E ainda asfalto "Sonrisal".
Ô lapada no lombo do piauiense.
Aí o povo começa a puxar pela memória. Lembra de escândalos antigos, operações policiais, manchetes que fizeram barulho e personagens que acabaram tendo que dar explicações à Justiça.
Lembra da Operação Topique, no governo Wellington Dias? Ou da OMNI e Difusão nesta gestão?
Mas isso já é outro capítulo.
O fato é que, hoje, o governo parece agradar bastante aos "rafaboys". E só.
Por que será?
Se alguém souber, me conte.
Porque curiosidade de repórter é igual urticária: começa num canto e, quando a gente percebe, está coçando o corpo todo.
E, por falar em coceira, dizem que já tem mais um empréstimo engatilhado.
Daqueles que passam pela Assembleia na velocidade de um carro descendo a Marechal Castelo Branco.
Não precisa nem reduzir a marcha.
É só passar. Tá tudo aprovado. Do jeito que o governo quer. Mesmo com a água no meio da canela.
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