
As relações entre Brasil e Estados Unidos podem ganhar mais um capítulo de tensão diplomática. Segundo informações divulgadas nos bastidores de Brasília, setores alinhados ao governo Lula defendem que o Palácio do Planalto negue o chamado agrément ao deputado americano Daniel Perez, escolhido pelo presidente Donald Trump para assumir a embaixada dos Estados Unidos no Brasil.
Para quem não está familiarizado com o termo, o agrément é uma formalidade diplomática indispensável. Antes que um embaixador seja oficialmente nomeado, o país que irá recebê-lo precisa concordar com a indicação. Na prática, trata-se de uma espécie de autorização prévia para que o diplomata exerça suas funções.
Normalmente, essa etapa ocorre sem maiores problemas. Afinal, a recusa de um agrément costuma ser interpretada como um gesto de forte desagrado político e diplomático. Não é algo comum entre países que mantêm relações estáveis.
Mas o Brasil possui alguns precedentes.
Em 2016, durante o governo de Dilma Rousseff, o país recusou o agrément de um embaixador indicado por Israel. A decisão provocou forte desgaste diplomático e levou autoridades israelenses a classificarem o Brasil como um "anão diplomático", expressão que repercutiu internacionalmente.
Mais recentemente, já sob o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, o pedido de agrément para um novo embaixador israelense permaneceu sem resposta por meses, até que a indicação acabou sendo retirada.
Agora, a eventual negativa envolveria os Estados Unidos, principal parceiro econômico e diplomático do Brasil no continente.
O pano de fundo da discussão vai muito além do nome de Daniel Perez.
Nos bastidores, a resistência estaria ligada ao atual secretário de Estado americano, Marco Rubio, que tem adotado posições críticas em relação a governos de esquerda na América Latina e já mencionou Brasil e Cuba em declarações sobre regimes considerados hostis aos interesses americanos.
Outro elemento que alimenta a tensão é o perfil político dos envolvidos. Tanto Marco Rubio quanto Daniel Perez são filhos de famílias cubanas que deixaram a ilha após a revolução liderada por Fidel Castro. Essa origem ajudou a moldar trajetórias políticas marcadas por forte oposição aos regimes socialistas e comunistas da região.
Mas, independentemente das preferências ideológicas, uma eventual recusa do agrément teria consequências que vão além da política partidária.
Na diplomacia, gestos têm peso. Muitas vezes, mais peso do que discursos.
Negar um embaixador indicado pela Casa Branca seria interpretado em Washington como um sinal inequívoco de desgaste na relação bilateral. E isso ocorreria justamente num momento em que Brasil e Estados Unidos já enfrentam divergências em temas comerciais, segurança pública, política internacional e combate ao crime organizado.
Por enquanto, nada está decidido.
Mas a simples circulação da hipótese já demonstra que o clima entre Brasília e Washington está longe de ser dos mais tranquilos.
E, como ensina a própria diplomacia, quando os embaixadores viram notícia antes mesmo de assumir o cargo, normalmente há algo mais acontecendo nos bastidores.
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