
Se existe algo que caracteriza o terceiro governo Lula, segundo seus críticos, é a impressionante capacidade de conviver com contradições sem demonstrar qualquer desconforto. O presidente diz uma coisa hoje, outra amanhã e, dias depois, sustenta uma terceira versão completamente diferente. E tudo segue normalmente.
O que ontem era indispensável, hoje pode ser dispensável. O que era injusto pode virar necessário. O que era criticado pode passar a ser defendido. A política, afinal, é a arte da adaptação. Mas existe um tema que parece imutável para Lula e para boa parte da esquerda brasileira: a resistência em classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas.
Nesse assunto, não há meio-termo.
Basta surgir a possibilidade de enquadrar as maiores facções criminosas do país nessa categoria para entrar em cena um repertório conhecido. As expressões aparecem quase automaticamente: "ataque à soberania nacional", "ingerência estrangeira", "interferência americana em assuntos internos do Brasil".
E foi exatamente nessa linha que o presidente reagiu à decisão dos Estados Unidos de incluir PCC e Comando Vermelho na lista de organizações terroristas estrangeiras.
"Hoje eu estou muito triste", declarou Lula, acrescentando que o secretário de Estado americano, Marco Rubio, teria afirmado que "nossos criminosos" são terroristas.
A expressão rapidamente dominou o debate político.
Os defensores do presidente argumentaram que o termo "nossos criminosos" fazia referência apenas à nacionalidade dos integrantes das facções. Os críticos, por sua vez, enxergaram na frase mais uma demonstração da dificuldade do governo em tratar o tema com a firmeza esperada pela população.
A polêmica aumentou quando o próprio Lula afirmou que PCC e Comando Vermelho "são terroristas para as comunidades brasileiras" e que seu governo pretende combatê-los dentro do país.
E é justamente nesse ponto que surgem os questionamentos.
Se as facções já produzem terror nas comunidades, controlam territórios, impõem regras, expulsam moradores, executam rivais e desafiam o Estado há décadas, por que a preocupação maior parece ser a classificação jurídica adotada pelos Estados Unidos?
Por que a reação mais enfática é dirigida à decisão americana e não ao fortalecimento das organizações criminosas?
O governo sustenta que a medida pode abrir precedentes para pressões internacionais sobre temas internos e gerar impactos econômicos relevantes. Essa preocupação não é desprezível.
A classificação amplia o alcance das sanções americanas e pode atingir empresas, instituições financeiras e indivíduos que mantenham relações comerciais ou financeiras com integrantes das facções. Além disso, o Planalto teme reflexos sobre investimentos internacionais e sobre a percepção externa do ambiente econômico brasileiro.
Sob essa ótica, a preocupação existe e possui fundamento.
Mas o problema político permanece.
Para grande parte da população, a discussão jurídica parece secundária diante da realidade vivida diariamente em áreas dominadas pelo crime organizado. O cidadão comum enxerga facções que aterrorizam bairros, recrutam jovens, desafiam autoridades e movimentam bilhões de reais em atividades ilícitas.
Por isso, a resistência do governo à classificação americana acaba sendo interpretada por muitos como uma defesa indireta das organizações criminosas, ainda que essa não seja a intenção declarada do Planalto.
A situação torna-se ainda mais delicada porque a medida foi anunciada poucos dias após uma reunião entre o senador Flávio Bolsonaro e o então presidente americano Donald Trump. Embora autoridades americanas afirmem que a decisão não decorre exclusivamente desse encontro, a coincidência temporal alimentou o debate político brasileiro.
No fim das contas, o governo se vê diante de um dilema complicado.
Se combate a classificação americana, corre o risco de parecer mais preocupado com a narrativa diplomática do que com o combate ao crime.
Se aceita a medida sem resistência, enfraquece seu discurso sobre soberania nacional.
Enquanto isso, PCC e Comando Vermelho continuam sendo o que sempre foram aos olhos da população: organizações responsáveis por espalhar medo, violência e insegurança em boa parte do país.
E talvez seja justamente essa percepção popular que transforme esse tema em um dos principais campos de batalha da próxima disputa eleitoral.
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