
Está cada vez mais difícil distinguir se os rompantes de Luiz Inácio Lula da Silva são fruto de imprudência, desinformação, má assessoria ou simples provocação calculada. O fato é que o padrão se repete e, pior, se intensifica. O presidente fala ao mundo como quem ignora as regras mais básicas da diplomacia, como um jogador que entra em campo sem conhecer o regulamento e ainda assim insiste em ditar as regras do jogo.
Lula não mede palavras. Não demonstra preocupação em compreender plenamente os fatos antes de opinar. E, nesse movimento, transforma sua retórica em uma espécie de metralhadora giratória que dispara, com frequência, contra os Estados Unidos, uma das democracias mais consolidadas do planeta. O contraste chama atenção. Para regimes autoritários e grupos controversos, o tom é de afago. Para uma democracia estruturada, o discurso é de confronto.
Analistas já apontaram que há algo de performático nessa postura. É como se Lula abandonasse o papel de estadista que reivindica e vestisse o figurino de antagonista de Donald Trump e, por extensão, do próprio governo americano. Não se trata de divergência pontual. É uma encenação recorrente, quase previsível, como um roteiro que se repete a cada novo episódio internacional.
O caso da expulsão do delegado Marcelo Ivo de Carvalho é emblemático. Diante de uma acusação grave feita pelas autoridades americanas, a de interferência no sistema migratório, Lula opta por reagir com ameaça de reciprocidade antes mesmo de ter clareza sobre os fatos. Ele próprio admite que ainda não sabe exatamente o que aconteceu. Ainda assim, fala em revidar. É como reagir a um julgamento antes mesmo de conhecer a acusação.
O mais elementar, em um cenário como esse, seria consultar sua equipe. E equipe não falta. Assessores, diplomatas, especialistas em relações internacionais acompanham o presidente em viagens e compromissos. O caminho natural seria ouvir, ponderar, calibrar o discurso. Mas Lula prefere o improviso. Prefere o embate. Prefere transformar uma situação delicada em palco para declarações impulsivas.
Ao mencionar a possibilidade de expulsar agentes americanos do Brasil, o presidente eleva o tom sem considerar as implicações. A reciprocidade, em relações internacionais, não é bravata. É instrumento sério, usado com cautela. Se houver irregularidades comprovadas por parte de agentes estrangeiros, medidas são cabíveis. Mas agir por impulso, sem base concreta, é como acionar um alarme de incêndio sem verificar se há fogo.
A acusação contra Marcelo Ivo é, por si só, extremamente grave. Os Estados Unidos alegam tentativa de manipulação de seu sistema migratório, algo que, dentro da lógica institucional americana, é tratado com rigor absoluto. Ao contrário do que muitas vezes ocorre no Brasil, ali as regras não são elásticas. São aplicadas com precisão quase mecânica. Ignorar isso é não compreender o terreno em que se pisa.
Nesse contexto, a fala de Lula soa despropositada. Mais do que isso, soa arrogante e deslocada. É como alguém que, diante de uma infração grave, prefere atacar o árbitro em vez de revisar a própria conduta. O resultado é previsível. Desgaste, ruído diplomático e perda de credibilidade.
A crítica não está em defender um país ou outro, mas em apontar a necessidade de responsabilidade no exercício do cargo. Um presidente não fala apenas por si. Cada palavra carrega o peso de uma nação. Quando esse peso é tratado com leveza, o risco é transformar política externa em palco de improviso.
E é justamente isso que o episódio revela. Um padrão de comportamento que substitui análise por impulso, estratégia por retórica e diplomacia por confronto. Como um motor que gira em alta rotação sem controle, o discurso pode até impressionar no início, mas tende a comprometer o funcionamento do sistema como um todo.
No fim, a questão não é apenas o que Lula disse, mas como disse e por que disse. Em política internacional, forma e conteúdo caminham juntos. Quando ambos se desalinham, o resultado raramente é positivo. E, nesse caso, o que se vê é mais um capítulo de um roteiro que insiste em trocar prudência por espetáculo.
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