
As declarações de Merlong Solano e Dr. Francisco Costa não surgem no vazio. Elas são, na prática, um reconhecimento político de algo que já aparece nos dados, há desgaste, e ele não é apenas de narrativa.
Merlong fala em “cansaço da sociedade” e necessidade de “refazer o modo de operar”. Francisco Costa aponta a urgência de transformar ações em resultado eleitoral. Traduzindo o politicamente aceitável, ambos admitem que há um descompasso entre o que foi prometido e o que foi efetivamente entregue.
O problema é que a estratégia sugerida, ajustar discurso, reorganizar comunicação, reposicionar o governo, parece atacar o sintoma, não a causa.
A tentativa de reposicionar a imagem parte de um pressuposto questionável, o de que o problema é percepção.
Mas percepção não surge do nada. Ela é construída a partir de fatos concretos. E os fatos mostram que promessas centrais de 2022 seguem incompletas ou não cumpridas.
O exemplo mais evidente é a promessa de zerar filas do SUS. Não se trata de meta secundária. Era um compromisso estruturante.
Hoje, filas para exames, consultas e cirurgias continuam sendo um dos maiores gargalos da saúde pública. Não houve ruptura. Houve continuidade de um problema histórico. A situação piorou.
Nesse ponto, não há ajuste de narrativa que substitua resultado prático.
No ensino superior, o governo anunciou duas novas universidades federais. O anúncio gerou expectativa. A entrega não veio. Traduzindo, a entrega foi zero.
Nenhuma das instituições saiu do papel até agora. O contraste é direto, o discurso avançou mais rápido que a execução. E isso o povo percebe. Tanto quem iria se beneficiar, quanto quem observa a dinâmica do governo se descepciona.
No campo trabalhista, a revisão das regras e a regulamentação de trabalhadores de aplicativo seguem sem solução definitiva. Pior os arranjos anunciados pelo ministro Guilherme Boulos não agradaram.
A pauta existe, o debate existe, mas a implementação não. O mesmo vale para a discussão sobre jornada de trabalho. Permanece no campo político, sem efeito concreto na vida do trabalhador. E o que agrava a situação é que ela parece na pré-campanha, como mais uma promessa.
A promessa de ampliar transparência, incluindo revisão de sigilos, não avançou de forma consistente. O governo do presidente Lula da Silva aplicou sigilo de 100 anos a 1.339 solicitações de acesso à informação ao longo de 2023. A justificativa predominante foi a existência de dados pessoais nos conteúdos solicitados.
Entre os casos negados estão a agenda da primeira-dama, Janja da Silva, e a relação dos militares do Batalhão da Guarda Presidencial que estavam de serviço em 8 de janeiro de 2023.
Na segurança pública, também não se consolidou uma política nacional capaz de reorganizar o enfrentamento ao crime de maneira estrutural. O crime organizado escalou em todo o país. As facções criminosas dominam cidades. Em alguns Estados como Ceará e Bahia a segurança pública foi sequestrada pelas facções.
São áreas onde o discurso existe, mas o impacto ainda é limitado. E mais uma vez o cidadão percebe. E tudo é questão de percepção
Há redução de desmatamento em determinados períodos, o que representa avanço. Mas a meta mais ambiciosa não foi alcançada. As queimadas também ajudam a derreter a popularidade do presidente.
Na economia, o crescimento existe, mas em intensidade menor do que a expectativa criada em campanha. A geração de empregos continua desigual, e a percepção de melhora não é homogênea. Talvez reflexo da inclusão de beneficiários do Bolsa Família no cálculo do emprepo. O fatura chegou.
A reforma tributária avançou, mas não resolve integralmente os problemas do sistema. É um progresso, mas não um ponto de chegada. A percepção popular é a da taxação. O preços de produtos e serviços subiram feito balão de São João.
Já nas obras públicas, o padrão é claro, muitas retomadas, poucas entregas novas de grande impacto. As poucas obras estruturantes inauguradas foram remanescentes do governo passado.
Atualmente, o Brasil possui 11.469 obras paralisadas, representando 50,7% do total de 22.621 empreendimentos financiados com recursos federais. As obras paralisadas estão concentradas principalmente nos setores de saúde, educação e infraestrutura. O Estado com o maior número de obras paralisadas é o Maranhão, seguido pela Bahia e Pará.
Isso enfraquece a narrativa de transformação. E, expõe uma gestão se não "tetraplégica", altamente comprometida pela paralisia. O PAC mal saiu do papel. Isso também é perceptível.
Quando Merlong Solano fala em mudar o modo de operar, ele reconhece o desgaste. Quando Dr. Francisco Costa fala em converter ação em voto, ele admite que a entrega ainda não se traduz em percepção positiva.
A estratégia agora é acelerar, reorganizar, reposicionar. Mas há um limite evidente.
Sem resultados concretos, discurso vira tentativa de convencimento,comunicação vira substituto da realidade.E substitutos, em política, têm prazo curto.
O problema não é exclusivamente de comunicação. Também não é ausência total de ação. O problema é outro, execução abaixo do nível das promessas centrais.
O governo não está parado, mas também não conseguiu cumprir plenamente aquilo que mais pesava no debate eleitoral. E isso implica e explica o desgaste.
E nem vamos falar na gastança desenfreada como se não houvesse amanhã.
No fim, a pergunta que as próprias declarações levantam permanece, é possível reverter percepção sem mudar resultado?
Porque, se a resposta for negativa, então o desafio não é falar melhor. É entregar mais. Entendem, deputados Merlong e Dr. Francisco?
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