
Parafraseando Otto von Bismarck, que dizia que, "a política é a arte do possível", no Brasil a frase parece ter sido adaptada sem cerimônia. Aqui, política virou a arte da promessa fácil, da mentira, do engodo e da memória curta. É um teatro onde o roteiro muda conforme a plateia esquece. E esquece rápido. Será?
Exemplos não faltam. Do vereador caloteiro ao presidente que promete banquete e entrega aperto, o cardápio é variado. O jornalista Cláudio Humberto lembrou, em sua coluna no Diário do Poder, um detalhe que não deveria ser detalhe. Há 1.335 dias Lula prometeu picanha e cervejinha, mas era só campanha eleitoral. Virou slogan, virou esperança, virou voto. Hoje, virou lembrança incômoda.
A realidade é outra. A cerveja ficou mais cara. A carne subiu como foguete. A inflação comeu o prato antes mesmo de chegar à mesa. O que era promessa virou ironia pronta. É como convidar o povo para um churrasco e, no dia, servir só o cheiro da fumaça. Ou para uma peixada e servir carcaça de peixe.
Os números não mentem, ainda que a política tente. A inflação acumulada encareceu tudo. A picanha subiu, o contrafilé disparou, até o músculo virou artigo de luxo. O brasileiro, que foi chamado para o banquete, agora disputa o osso. E olha lá.
O mais curioso é o silêncio. Em 2022, a frase era repetida como mantra. Em 2026, sumiu do discurso. É como aquele vendedor que promete o céu e, depois da venda, troca de telefone. Some. Finge que nunca falou.
E o povo? O povo aguenta. Aguenta até cansar. Quando cansa, reage. A popularidade do presidente escorre pelos dedos como picolé no sol, "do do pingo do meio dia", em Teresina. Derrete rápido, sem aviso. Não é teoria. .É reflexo
Enquanto isso, o adversário cresce. Flávio Bolsonaro avança no terreno político como quem sobe ladeira com vento a favor. E aí o jogo vira. O governo, que antes prometia fartura, agora corre atrás do prejuízo. Tenta - se virar nos trinta, lança programa -, anuncia medida, distribui expectativa como quem distribui panfleto em feira.
Tudo isso diante de um cenário onde a justiça, especialmente o Supremo Tribunal Federal, observa e, muitas vezes, protagoniza capítulos próprios dessa novela. Porque no Brasil, política e justiça não apenas se cruzam. Dançam juntas, às vezes no mesmo ritmo, às vezes pisando no pé uma da outra.
O problema é estrutural. A política brasileira se especializou em vender futuro no fiado. Promete como se não houvesse amanhã. E, quando o amanhã chega, finge que o combinado era outro. É um ciclo conhecido. Promessa, eleição, esquecimento, nova promessa.
No fim, fica a sensação de déjà vu. O eleitor já viu esse filme, conhece os personagens, sabe o final, mas ainda assim volta à sala, pelo menos os mais incaltos. Talvez por falta de opção. Talvez por esperança. Talvez por costume.
A pergunta que fica não é se prometeram. Prometeram. A pergunta é: até quando o brasileiro vai continuar aceitando convite para um churrasco onde a picanha nunca chega?
Se Otto von Bismarck pudesse assistir a esse enredo tropical, provavelmente estaria se revirando no túmulo ao ver sua máxima transformada em algo bem mais próximo da arte de prometer, negar e seguir como se nada tivesse acontecido.
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