
A democracia se parece muito com uma estrada de duas mãos. De um lado trafega o governo com suas decisões, decretos e projetos. Do outro lado vem a oposição, que observa, questiona e cobra. Quando uma dessas faixas desaparece, o trânsito institucional fica perigoso, quase como uma rodovia sem acostamento. O debate público empobrece e o cidadão perde o direito de enxergar alternativas.
No Piauí, um episódio recente ilustra bem como a oposição pode funcionar quando decide sair da zona confortável da crítica vazia e entrar no terreno mais exigente das propostas concretas. O protagonista dessa discussão é Joel Rodrigues, ex-prefeito de Floriano e pré-candidato ao governo pelo Progressistas.
Ao comentar a chamada “taxa do sol”, Joel resolveu fazer algo que nem sempre aparece na política brasileira. Em vez de apenas criticar, apresentou uma solução direta e provocou o governo a agir.
O debate gira em torno da cobrança do ICMS sobre a energia excedente gerada por consumidores que utilizam o Sistema de Compensação de Energia Elétrica. Em termos simples, trata-se da energia que sobra quando uma residência ou empresa produz eletricidade por meio de painéis solares e injeta o excedente na rede.
Esse modelo se tornou cada vez mais comum no Brasil. Famílias investem valores consideráveis na instalação de placas solares com a expectativa de reduzir a conta de luz ao longo do tempo. O investimento lembra a plantação de uma árvore frutífera. No começo exige esforço e dinheiro. Depois começa a dar retorno.
A crítica de Joel Rodrigues é que, no Piauí, essa lógica estaria sendo comprometida pela cobrança de imposto sobre a energia excedente.
Em vídeo divulgado nas redes sociais, Joel Rodrigues questionou diretamente o governador Rafael Fonteles.
Segundo Joel, o governador estaria aguardando uma solução legislativa no Congresso Nacional para tratar do tema. Para o pré-candidato, essa postura equivale a esperar que Brasília resolva um problema que, na prática, nasce dentro do próprio estado.
A comparação feita por Joel é simples e contundente. Se o imposto é cobrado pelo estado, o próprio estado teria capacidade de rever a cobrança.
Em outras palavras, seria como reclamar da chuva enquanto se segura o guarda-chuva fechado.
A solução sugerida pelo ex-prefeito de Floriano é direta. Enviar imediatamente um projeto de lei para a Assembleia Legislativa do Piauí suspendendo a cobrança do ICMS sobre a energia excedente gerada por consumidores.
Na avaliação de Joel, o governo teria facilidade para aprovar a medida, já que possui ampla maioria entre os deputados estaduais.
O argumento político é quase matemático. Se há maioria parlamentar e se o problema está identificado, a solução poderia ser rápida.
Outro ponto destacado por Joel Rodrigues é o impacto econômico para quem investe em energia solar. Instalar um sistema fotovoltaico exige um investimento considerável. Para muitas famílias, a decisão envolve financiamento ou anos de economia.
A promessa é simples. Produzir a própria energia para reduzir a conta mensal.
Quando surge uma cobrança tributária sobre o excedente, essa promessa perde parte do brilho. É como comprar uma bicicleta para fugir do trânsito e descobrir que alguém decidiu instalar um pedágio na ciclovia.
A controvérsia também passou pelo campo jurídico. O Progressistas chegou a obter uma decisão judicial suspendendo a cobrança do imposto no estado.
Posteriormente, o governo recorreu ao Supremo Tribunal Federal, e uma decisão monocrática do ministro Alexandre de Moraes derrubou a liminar que beneficiava os consumidores piauienses.
Com isso, a cobrança voltou a valer.
A intervenção de Joel Rodrigues recoloca o debate em um ponto essencial da política. Criticar governos é relativamente fácil. Difícil é apresentar caminhos concretos.
Ao sugerir uma solução legislativa direta, o pré-candidato tenta transformar a crítica em proposta.
A atitude lembra um velho princípio da vida pública. Oposição que apenas grita acaba soando como buzina em engarrafamento. Faz barulho, mas não move o carro.
Já a oposição que apresenta alternativas se comporta como quem aponta um desvio possível na estrada. Se o governo aceitar ou não a provocação, isso pertence ao campo da disputa política.
Mas o episódio mostra que, em democracia, a oposição mais eficaz não é aquela que apenas aponta o problema. É a que desafia o poder a resolvê-lo.
ELEITORADO FEMININO Flávio Bolsonaro reforça campanha com ex-presidente da Caixa e aposta no eleitorado feminino
ESTADO DE DIREITO Quando a balança parece pender para um só lado
ELEIÇÕES 2026 Bolsonaro pede união da direita e lança carta em apoio à pré-candidatura de Flávio Mín. 20° Máx. 38°