Segunda, 13 de Julho de 2026
23°

Parcialmente nublado

Teresina, PI

Política ERA TUDO MENTIRA

A nova dinastia dos que juravam destruir dinastias

Quando o discurso contra as oligarquias vira manual para construir novas

05/04/2026 às 04h45 Atualizada em 05/04/2026 às 10h54
Por: Douglas Ferreira
Compartilhe:
Júlio César, Marcelo Castro e Wellington Dias e seus filhos na política - Foto: Reprodução/Editada por IA
Júlio César, Marcelo Castro e Wellington Dias e seus filhos na política - Foto: Reprodução/Editada por IA

Não faz tanto tempo assim que os chamados caciques da política nordestina eram apontados como símbolo máximo do atraso. A esquerda da época os descrevia como verdadeiros donos de capitanias hereditárias modernas. E havia motivos para isso. No Maranhão, por exemplo, José Sarney ergueu uma dinastia política que atravessou décadas, com filhos, netos e aliados ocupando cargos estratégicos. A hegemonia da família Sarney atravessou meio século como um carvalho antigo dominando a paisagem política local.

O fenômeno não era isolado. No Rio Grande do Norte, as famílias Alves e Maia comandaram a política por décadas, alternando mandatos como quem troca as peças de um tabuleiro familiar. No Ceará, antes da ascensão de Tasso Jereissati, eram os Bezerra e os Távora que ocupavam o palco central do poder. Na Paraíba, os sobrenomes Lucena, Buriti e Cunha Lima funcionavam como marcas registradas do poder político regional. Já na Bahia, Antônio Carlos Magalhães governava como um capitão absoluto da política baiana, também cercado por filhos e netos na vida pública.

Era um tempo em que se dizia que o Nordeste vivia sob a lógica dos coronéis. Famílias políticas funcionavam como troncos antigos de uma árvore genealógica que nunca deixava de produzir novos ramos eleitorais. O poder passava de geração em geração como uma herança de fazenda, transmitida junto com terras, sobrenomes e influência.

No Piauí, o cenário não era diferente. As famílias Almendra, Freitas e Portela simbolizavam esse modelo de poder concentrado. Cada grupo político possuía seu território, seu eleitorado cativo e seu espaço consolidado no aparelho do Estado. Eram feudos eleitorais que pareciam imunes ao tempo.

Foi nesse ambiente que surgiu o discurso de ruptura. Um movimento político prometia desmontar as velhas estruturas. A palavra de ordem era modernização, renovação, libertação do povo das velhas oligarquias. Nesse contexto apareceu um personagem que ganhou destaque na retórica contra esse sistema. Um jovem bancário vindo do interior, que sonhava em ser vaqueiro, mas encontrou na política um caminho mais promissor.

Esse jovem era Wellington Dias.

Quem acompanhou aqueles anos certamente lembra dos discursos inflamados. Em praças públicas, ele engrossava a veia do pescoço e denunciava o domínio das oligarquias como se estivesse diante do maior mal político do estado. Repetia com convicção que o Piauí precisava romper com esse modelo, que as oligarquias representavam atraso, estagnação e decadência.

A promessa era clara como água de cacimba em dia de seca. O povo seria libertado das dinastias políticas.

O tempo passou.

E eis que o mesmo personagem que brandia a espada contra os clãs políticos agora parece empenhado em construir o seu próprio. Primeiro veio a entrada da esposa na política. Depois, a nomeação para o Tribunal de Contas, algo que muitas das antigas oligarquias sequer ousaram fazer com tanta naturalidade. Agora surge um novo capítulo. O filho Vinícius Dias é apresentado como possível candidato a deputado. A filha Yasmin Dias aparece como possibilidade para suplência de senador.

O curioso não é apenas o movimento. O curioso é a naturalidade com que ele é apresentado. Sem constrangimento. Sem disfarce. Sem sequer o tremor de uma pálpebra.

É como se o discurso antigo tivesse sido guardado numa gaveta junto com panfletos de campanha envelhecidos.

Mas o fenômeno não se limita a um único caso. O deputado Júlio César Lima já consolidou sua própria estrutura familiar no poder. A esposa ocupa vaga no Senado após a ida de Wellington Dias para o ministério do governo de Luiz Inácio Lula da Silva. O filho Georgiano Neto se movimenta para disputar uma vaga na Câmara Federal. Outro filho, Júlio César Filho, entra na disputa por uma cadeira na Assembleia Legislativa.

É uma engrenagem familiar funcionando com precisão quase empresarial. Uma espécie de holding política onde cada integrante ocupa uma função no organograma do poder.

Como se não bastasse, o senador Marcelo Castro também sinaliza que o filho Marcelo Filho pode ingressar na política nos próximos anos. Nada improvisado. Tudo calculado. Tudo planejado.

O cenário começa a lembrar uma antiga fotografia política, apenas com rostos diferentes.

A política que prometia ser libertadora passa a funcionar como herança familiar. Mandatos começam a circular dentro das mesmas casas como se fossem móveis de uma sala antiga, trocados de lugar conforme a conveniência do momento.

Aquilo que antes era denunciado como coronelismo agora ressurge com outra embalagem. A diferença parece ser apenas estética. O discurso mudou de tom, mas a lógica permanece curiosamente semelhante.

E o eleitor?

O eleitor segue para a urna como quem cumpre um ritual inevitável. Caminha para a cabine de votação muitas vezes com o mesmo semblante resignado do gado que segue cabisbaixo para o curral final. Participa do processo. Confirma os nomes. Legitima o sistema.

No fim das contas, a pergunta que permanece ecoando no ar é simples: quem venceu a guerra contra as oligarquias?

Talvez ninguém. Talvez apenas tenha ocorrido uma troca de sobrenomes no comando da mesma estrutura.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários