
A política já foi definida como a arte do possível. Hoje, ela se parece muito mais com a engenharia do factível. Nada acontece por acaso. Cada movimento é calculado, cada passo é medido, cada decisão é tomada como quem desloca peças cuidadosamente em um tabuleiro de xadrez. Na política moderna, para que algo se torne possível é preciso antes preparar o terreno, construir alianças e organizar as peças com precisão.
É nesse contexto que deve ser interpretada a saída de Jeová Alencar do Republicanos e sua filiação ao União Brasil. À primeira vista pode parecer apenas mais uma mudança partidária, algo comum no cotidiano da política brasileira. Mas quando se observa o momento, os personagens e o cenário eleitoral que se desenha no Piauí, a movimentação passa a ganhar contornos muito mais estratégicos.
Jeová não é um político improvisado. É experiente, habilidoso na articulação e conhecido por saber transitar entre diferentes grupos políticos com inteligência e prudência. Na política, diz-se que há quem dê passos e há quem construa caminhos. Jeová pertence claramente ao segundo grupo. Não costuma dar ponto sem nó.
Sua trajetória recente comprova isso. Saiu de uma vereança consolidada em Teresina, chegou à Alepi e avançou para a vice-prefeitura da capital. Foi um salto político relevante, fruto de habilidade, articulação e leitura correta do momento político.
Outro fator que aumenta seu peso eleitoral é sua votação expressiva para deputado, especialmente em Teresina. Além da capital, ele também recebeu votos em diversos municípios do Norte do Piauí, mostrando capacidade de dialogar com diferentes regiões do Estado. Trata-se de um capital político significativo.
Por isso sua mudança partidária não passa despercebida. O Republicanos, partido que ele deixa, mantém alinhamento com o Palácio de Karnak. Já o União Brasil está federado com o Progressistas, partido do pré-candidato ao governo Joel Rodrigues.
Essa simples informação muda completamente a leitura do movimento político.
A filiação ocorreu ao lado do prefeito de Teresina, Sílvio Mendes, também integrante do União Brasil. A presença do prefeito no ato de filiação reforça a percepção de que a mudança não foi apenas pessoal. Pode ter sido fruto de uma articulação política mais ampla.
Nos bastidores da política piauiense, cresce a especulação de que Jeová possa integrar como vice a chapa encabeçada por Joel Rodrigues na disputa pelo Governo do Estado. A hipótese não surge por acaso. Na composição de uma chapa majoritária, a escolha do vice costuma obedecer a critérios estratégicos. É preciso equilíbrio regional, capacidade de articulação e, principalmente, baixa rejeição.
Jeová reúne vários desses atributos. Tem perfil considerado leve, capacidade de diálogo e trânsito político em diferentes grupos. Em política, um vice eficiente funciona como um elo de ligação. Como uma ponte que conecta territórios eleitorais diferentes.
Outro detalhe importante é o momento da movimentação. A filiação ao União Brasil ocorreu logo após sua exoneração da Secretaria Municipal de Governo de Teresina, decisão formalizada pelo prefeito Sílvio Mendes. A sequência dos fatos chama atenção pela rapidez e pelo timing político.
Mais interessante ainda é que, após a saída de Jeová do cargo, o prefeito nomeou para a função o vereador Samuel Alencar, filho de Jeová e também filiado ao União Brasil. A troca sugere continuidade política e preservação de espaço dentro da administração municipal.
Na política, coincidências raramente são apenas coincidências. Muitas vezes são movimentos cuidadosamente planejados que só revelam seu sentido completo algum tempo depois.
Diante desse cenário, a pergunta que começa a circular nos bastidores é inevitável. A mudança de partido foi apenas uma reorganização pessoal ou parte de uma estratégia maior que pode desembocar na formação de uma chapa competitiva ao Governo do Piauí?
Se o objetivo for realmente a vice de Joel Rodrigues, a escolha do partido faz todo sentido. O União Brasil integra a federação que sustenta o projeto político do Progressistas no Estado. Em outras palavras, é um terreno fértil para a construção dessa possibilidade.
Na política, sonhos sem estratégia costumam se dissolver rapidamente. Mas sonhos acompanhados de planejamento podem se transformar em realidade.
E Jeová Alencar parece ser exatamente esse tipo de político. Um sonhador que mantém os pés firmemente plantados no chão enquanto constrói, passo a passo, o caminho que pretende trilhar.
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