
As pesquisas eleitorais raramente produzem terremotos imediatos, mas às vezes revelam movimentos tectônicos silenciosos. É nesse ponto que os levantamentos mais recentes começam a chamar atenção para um fenômeno político: o crescimento consistente de Flávio Bolsonaro e sua aproximação numérica de Luiz Inácio Lula da Silva. Não se trata apenas de uma oscilação estatística. O que está em jogo é algo mais profundo: a possibilidade real de ruptura da hegemonia eleitoral que o presidente ainda tenta sustentar.
A nova sondagem do Paraná Pesquisas sugere exatamente isso. No cenário de primeiro turno, Lula aparece com 41,3%, enquanto Flávio Bolsonaro alcança 37,8%. Considerando a margem de erro de 2,2 pontos percentuais, os dois já se encontram em empate técnico. Mais significativo ainda é o segundo turno: Flávio surge com 45,2%, contra 44,1% de Lula. Numericamente à frente, ainda que dentro da margem de erro.
Em política, números assim não são apenas números. Eles indicam tendência.
O dado mais relevante não está apenas na fotografia atual, mas na trajetória recente. Nos primeiros levantamentos em que o nome de Flávio começou a aparecer como possível candidato presidencial, sua intenção de voto orbitava em patamares muito mais baixos. Aos poucos, porém, o senador foi absorvendo o eleitorado conservador que permanece fiel ao campo político associado ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
Esse movimento tem lógica eleitoral. O bolsonarismo consolidou ao longo da última década um eleitorado que dificilmente migra para candidaturas de centro ou para projetos políticos mais moderados. Quando esse campo se reorganiza em torno de um nome com sobrenome Bolsonaro, a transferência de votos tende a ser rápida e quase automática.
A curva de ascensão de Flávio, portanto, não é apenas pessoal. Ela representa a reorganização de um bloco político inteiro.
O segundo elemento que explica o fenômeno é o desgaste do próprio governo. A mesma pesquisa do Paraná Pesquisas mostra que 53,3% dos entrevistados não apoiam a reeleição de Lula, enquanto 43,7% defendem um novo mandato.
Esse número é politicamente devastador. Presidentes que chegam à metade do mandato com maioria contrária à reeleição passam a enfrentar um ambiente de vulnerabilidade crescente. Não significa derrota automática, mas indica que a narrativa de continuidade perdeu força.
Isso ajuda a explicar por que Lula, mesmo liderando o primeiro turno, já aparece ameaçado no segundo. A eleição presidencial brasileira é definida por rejeições tanto quanto por preferências.
Outro ponto relevante da pesquisa está no desempenho de outros nomes do campo conservador. Figuras como Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Aldo Rebelo aparecem com percentuais baixos.
Esse dado abre duas leituras possíveis.
A primeira é que o eleitorado de oposição ainda busca um polo de liderança. A segunda é que, caso Flávio consolide sua posição como principal adversário de Lula, esses votos podem migrar naturalmente para ele ao longo da campanha.
Historicamente, eleições presidenciais no Brasil caminham para a polarização entre dois polos dominantes. As candidaturas intermediárias raramente conseguem sustentar crescimento consistente.
Existe ainda um fator simbólico poderoso nessa equação: o sobrenome Bolsonaro. Desde 2018, ele se tornou uma espécie de marca política. Para admiradores, representa ruptura com o establishment. Para críticos, simboliza radicalização.
Independentemente da avaliação ideológica, trata-se de um ativo eleitoral relevante. Em campanhas altamente polarizadas, marcas políticas fortes costumam gerar identificação imediata com parcelas expressivas do eleitorado.
Nesse sentido, Flávio Bolsonaro carrega duas vantagens simultâneas: o capital político herdado do pai e uma imagem pública menos confrontadora que a de Jair Bolsonaro. Essa combinação pode ampliar sua capacidade de diálogo com setores que rejeitam Lula, mas também demonstram resistência ao estilo mais agressivo do ex-presidente.
A pergunta central não é apenas se Flávio pode vencer Lula. A questão mais profunda é outra: se a hegemonia eleitoral do petismo está começando a ruir.
Durante décadas, o Partido dos Trabalhadores construiu uma base social sólida, especialmente entre eleitores de menor renda. Essa base ainda existe, mas sinais de erosão começam a aparecer. Inflação persistente, crescimento econômico modesto e frustrações com promessas não cumpridas alimentam esse desgaste.
Quando uma pesquisa começa a mostrar empate técnico entre governo e oposição, o que se revela não é apenas disputa eleitoral. É a indicação de que o eleitorado está novamente aberto à mudança.
Pesquisas não elegem presidentes. Elas apenas capturam tendências de um momento específico. Ainda faltam meses de articulações políticas, alianças e crises imprevisíveis.
Mas há algo que já parece evidente: o cenário eleitoral brasileiro entrou em estado de ebulição.
Se a curva de crescimento de Flávio Bolsonaro continuar no ritmo atual, o que hoje parece apenas uma ameaça estatística pode se transformar numa disputa real pelo poder. E nesse caso, a eleição deixaria de ser apenas mais um capítulo da polarização brasileira.
Passaria a ser um plebiscito direto sobre o futuro político de Lula.
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