
A cena ficou gravada na memória política recente do Piauí como uma fotografia rara do encontro entre o poder institucional e a indignação popular. Em uma visita ao município de Amarante, no Médio Parnaíba, o governador Rafael Fonteles foi confrontado por uma mulher comum, mas consciente de seus direitos. A amarantina conhecida como Irmã Francisca não levantou cartazes nem organizou protestos multitudinários. Apenas fez o que raramente acontece diante de autoridades. Olhou o governador nos olhos e perguntou por que o governo cobra imposto sobre a energia que ela mesma produz com o sol.
A cena viralizou nas redes sociais como um daqueles momentos em que a política deixa de ser discurso e passa a ser confronto direto com a realidade. De um lado, o chefe do Executivo estadual. Do outro, uma pequena comerciante que, segundo suas próprias palavras, luta diariamente para sobreviver. Foi um choque semelhante ao encontro entre uma engrenagem pesada do Estado e uma peça pequena, mas resistente da sociedade.
O motivo da revolta era claro. A cobrança de ICMS sobre a energia gerada por sistemas solares residenciais, prática que passou a ser conhecida popularmente como “imposto do sol”. Em teoria, trata-se de uma discussão tributária complexa. Na prática, para o cidadão comum, a situação parece simples como o nascer do dia. O contribuinte investe do próprio bolso para instalar painéis solares e reduzir a conta de luz. Mesmo assim, continua pagando imposto sobre a energia que produz.
A política tributária que sustenta essa cobrança tem como protagonista o próprio governador Rafael Fonteles. Pressionado pela queda de arrecadação e pelas disputas jurídicas envolvendo o tema, o governo recorreu a todas as instâncias possíveis para manter o tributo. Foi uma batalha política e jurídica que chegou até o Supremo Tribunal Federal. No fim, o Estado conseguiu preservar a cobrança do imposto.
Para quem observa a questão de dentro dos gabinetes, trata-se de uma disputa sobre competência tributária e equilíbrio fiscal. Para quem paga a conta, a percepção é bem diferente. O sistema solar doméstico tornou-se para milhares de brasileiros uma espécie de bote salva-vidas diante do alto custo da energia elétrica. Em um país onde a conta de luz pesa como uma âncora no orçamento das famílias, a energia solar surge como uma promessa de autonomia.
É justamente essa promessa que se transforma em frustração quando o contribuinte percebe que o Estado continua presente na fatura. O ICMS cobrado no Piauí chega a 22,5 por cento, um dos mais elevados do país. Na prática, isso significa que parte significativa da economia proporcionada pelos painéis solares retorna aos cofres públicos. É como se o cidadão cavasse um poço para encontrar água e, ao final, tivesse que pagar imposto pela chuva que caiu sobre sua própria terra.
Irmã Francisca voltou a viralizar nas redes sociais recentemente com um novo vídeo. Desta vez, ela apresenta números que transformam indignação em matemática. Em uma conta de energia de R$ 1.243,00, o valor destinado ao ICMS chega a R$ 485,81. Para o governo estadual, trata-se de uma fração dentro de uma estrutura fiscal complexa. Para uma pequena comerciante do interior, é uma sangria difícil de aceitar.
No vídeo, a amarantina questiona com ironia e indignação. Ela lembra que foi quem pagou pelo sistema solar instalado em sua casa. Lembra também que o governo não investiu um centavo na estrutura que produz a energia. E então lança a pergunta que ecoa como provocação política. Quem vai dizer agora que ela está mentindo?
Esse episódio revela algo maior que um debate tributário. Mostra o distanciamento crescente entre as decisões técnicas do Estado e a percepção cotidiana do cidadão. Enquanto o governo enxerga números e equilíbrio fiscal, o contribuinte vê esforço, investimento e sobrevivência. É uma diferença de perspectiva tão grande quanto a distância entre um relatório burocrático e a realidade de quem precisa pagar a conta no final do mês.
O protesto de Irmã Francisca pode parecer isolado, mas ele representa um sentimento que atravessa silenciosamente o Estado. De Norte a Sul, de Leste a Oeste do Piauí, milhares de consumidores recorrem à energia solar tentando escapar de uma das contas de luz mais pesadas do planeta. Muitos pagam o imposto em silêncio. Outros reclamam nas redes sociais. Alguns poucos, como a comerciante de Amarante, escolhem confrontar o poder diretamente.
Na política, indignações silenciosas costumam amadurecer longe dos holofotes. Elas crescem como raízes subterrâneas que ninguém vê, mas que sustentam ou derrubam árvores inteiras. A revolta contra o chamado imposto do sol talvez seja apenas mais um capítulo da relação sempre tensa entre contribuinte e Estado. Mas a história recente mostra que, quando um cidadão comum decide falar em voz alta aquilo que muitos pensam em silêncio, o eco pode ser maior do que qualquer governo imagina.
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