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IRMÃ FRANCISCA: O grito contra o “imposto do sol”: quando uma cidadã enfrenta o poder no Piauí; veja vídeo!

Em Amarante, a comerciante Irmã Francisca confronta o governador Rafael Fonteles e transforma a cobrança de ICMS sobre energia solar em símbolo da revolta silenciosa de milhares de contribuintes que recorrem ao sol para fugir de uma das contas de luz mais caras do país

29/03/2026 às 13h35 Atualizada em 29/03/2026 às 14h03
Por: Douglas Ferreira
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Irmã Francisca ao confrontar o governador Rafael Fonteles em Amarante - Foto: Reprodução
Irmã Francisca ao confrontar o governador Rafael Fonteles em Amarante - Foto: Reprodução

A revolta contra o “imposto do sol” e o grito de uma cidadã diante do poder

A cena ficou gravada na memória política recente do Piauí como uma fotografia rara do encontro entre o poder institucional e a indignação popular. Em uma visita ao município de Amarante, no Médio Parnaíba, o governador Rafael Fonteles foi confrontado por uma mulher comum, mas consciente de seus direitos. A amarantina conhecida como Irmã Francisca não levantou cartazes nem organizou protestos multitudinários. Apenas fez o que raramente acontece diante de autoridades. Olhou o governador nos olhos e perguntou por que o governo cobra imposto sobre a energia que ela mesma produz com o sol.

A cena viralizou nas redes sociais como um daqueles momentos em que a política deixa de ser discurso e passa a ser confronto direto com a realidade. De um lado, o chefe do Executivo estadual. Do outro, uma pequena comerciante que, segundo suas próprias palavras, luta diariamente para sobreviver. Foi um choque semelhante ao encontro entre uma engrenagem pesada do Estado e uma peça pequena, mas resistente da sociedade.

O motivo da revolta era claro. A cobrança de ICMS sobre a energia gerada por sistemas solares residenciais, prática que passou a ser conhecida popularmente como “imposto do sol”. Em teoria, trata-se de uma discussão tributária complexa. Na prática, para o cidadão comum, a situação parece simples como o nascer do dia. O contribuinte investe do próprio bolso para instalar painéis solares e reduzir a conta de luz. Mesmo assim, continua pagando imposto sobre a energia que produz.

A política tributária que sustenta essa cobrança tem como protagonista o próprio governador Rafael Fonteles. Pressionado pela queda de arrecadação e pelas disputas jurídicas envolvendo o tema, o governo recorreu a todas as instâncias possíveis para manter o tributo. Foi uma batalha política e jurídica que chegou até o Supremo Tribunal Federal. No fim, o Estado conseguiu preservar a cobrança do imposto.

Para quem observa a questão de dentro dos gabinetes, trata-se de uma disputa sobre competência tributária e equilíbrio fiscal. Para quem paga a conta, a percepção é bem diferente. O sistema solar doméstico tornou-se para milhares de brasileiros uma espécie de bote salva-vidas diante do alto custo da energia elétrica. Em um país onde a conta de luz pesa como uma âncora no orçamento das famílias, a energia solar surge como uma promessa de autonomia.

É justamente essa promessa que se transforma em frustração quando o contribuinte percebe que o Estado continua presente na fatura. O ICMS cobrado no Piauí chega a 22,5 por cento, um dos mais elevados do país. Na prática, isso significa que parte significativa da economia proporcionada pelos painéis solares retorna aos cofres públicos. É como se o cidadão cavasse um poço para encontrar água e, ao final, tivesse que pagar imposto pela chuva que caiu sobre sua própria terra.

Irmã Francisca voltou a viralizar nas redes sociais recentemente com um novo vídeo. Desta vez, ela apresenta números que transformam indignação em matemática. Em uma conta de energia de R$ 1.243,00, o valor destinado ao ICMS chega a R$ 485,81. Para o governo estadual, trata-se de uma fração dentro de uma estrutura fiscal complexa. Para uma pequena comerciante do interior, é uma sangria difícil de aceitar.

No vídeo, a amarantina questiona com ironia e indignação. Ela lembra que foi quem pagou pelo sistema solar instalado em sua casa. Lembra também que o governo não investiu um centavo na estrutura que produz a energia. E então lança a pergunta que ecoa como provocação política. Quem vai dizer agora que ela está mentindo?

Esse episódio revela algo maior que um debate tributário. Mostra o distanciamento crescente entre as decisões técnicas do Estado e a percepção cotidiana do cidadão. Enquanto o governo enxerga números e equilíbrio fiscal, o contribuinte vê esforço, investimento e sobrevivência. É uma diferença de perspectiva tão grande quanto a distância entre um relatório burocrático e a realidade de quem precisa pagar a conta no final do mês.

O protesto de Irmã Francisca pode parecer isolado, mas ele representa um sentimento que atravessa silenciosamente o Estado. De Norte a Sul, de Leste a Oeste do Piauí, milhares de consumidores recorrem à energia solar tentando escapar de uma das contas de luz mais pesadas do planeta. Muitos pagam o imposto em silêncio. Outros reclamam nas redes sociais. Alguns poucos, como a comerciante de Amarante, escolhem confrontar o poder diretamente.

Na política, indignações silenciosas costumam amadurecer longe dos holofotes. Elas crescem como raízes subterrâneas que ninguém vê, mas que sustentam ou derrubam árvores inteiras. A revolta contra o chamado imposto do sol talvez seja apenas mais um capítulo da relação sempre tensa entre contribuinte e Estado. Mas a história recente mostra que, quando um cidadão comum decide falar em voz alta aquilo que muitos pensam em silêncio, o eco pode ser maior do que qualquer governo imagina.

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