
Existe um velho ditado popular no Brasil que costuma surgir quando a lógica desaparece e a realidade parece andar de cabeça para baixo. É a expressão que diz que “é o poste mijando no cachorro”. A imagem é propositalmente absurda. Na ordem natural das coisas, o cachorro é quem urina no poste. Quando o contrário acontece, a cena deixa de ser apenas estranha e passa a simbolizar uma inversão completa de papéis.
É justamente essa sensação que tomou conta do debate político após a apresentação do relatório paralelo da base governista na investigação do rombo no Instituto Nacional do Seguro Social. O documento rejeitou o indiciamento de nomes ligados ao entorno do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, como Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, além do sindicalista José Ferreira da Silva, o Frei Chico, e da lobista Roberta Luchsinger. Ao mesmo tempo, o texto propôs o indiciamento do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Para críticos do relatório, a situação lembra outros provérbios igualmente conhecidos. O mundo parece de cabeça para baixo. Quem deveria dar explicações passa a cobrar explicações. Em vez de esclarecer as sombras da investigação, o relatório acaba iluminando novas contradições políticas.
A investigação conduzida pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito sobre as fraudes envolvendo descontos indevidos em aposentadorias revelou um esquema que atingiu milhões de beneficiários da Previdência. O relator da comissão, o deputado Alfredo Gaspar, havia apresentado um parecer que apontava responsabilidades específicas e mencionava nomes ligados ao núcleo político e empresarial investigado.
A base governista reagiu com um relatório alternativo que amplia o número de investigados para mais de duzentas pessoas, mas desloca o foco central da narrativa. O documento propõe o indiciamento de Bolsonaro como suposto comandante de uma organização criminosa que teria permitido ou facilitado as fraudes nos descontos associativos.
Entre os nomes incluídos no pedido de indiciamento também aparece o senador Flávio Bolsonaro. Ao todo, o relatório sugere o indiciamento de 130 pessoas e encaminha outros 71 nomes para aprofundamento de investigações pela Polícia Federal.
Segundo o deputado Paulo Pimenta, integrante da comissão, as alterações administrativas ocorridas em 2019 teriam aberto espaço para que associações realizassem descontos indevidos em aposentadorias. A tese apresentada sustenta que mudanças normativas durante o governo Bolsonaro ampliaram a possibilidade de atuação dessas entidades.
O argumento, porém, não convence parte da oposição. Para críticos do relatório, responsabilizar exclusivamente decisões administrativas de um governo por um esquema que envolve centenas de agentes públicos e privados soa como tentar explicar um incêndio florestal culpando apenas quem acendeu um fósforo anos antes.
A disputa em torno do relatório expõe uma realidade recorrente no ambiente político brasileiro. Comissões parlamentares que deveriam funcionar como instrumentos de investigação acabam muitas vezes se transformando em arenas de narrativa. Em vez de buscar apenas fatos, cada lado tenta construir sua própria versão da história.
O resultado é um cenário que lembra um teatro em que os papéis mudam de lugar no meio da peça. Acusadores passam a agir como defensores. Investigados tornam-se denunciantes. E a opinião pública observa a cena com a sensação de que a lógica desapareceu da sala.
No final, o que permanece é a pergunta que atravessa o debate político brasileiro como uma sombra persistente. A CPMI está buscando a verdade sobre o rombo bilionário que atingiu aposentados ou está apenas reorganizando responsabilidades de acordo com conveniências partidárias?
Quando o poste começa a mijar no cachorro, o problema já deixou de ser apenas humorístico. Significa que algo na ordem das coisas deixou de funcionar como deveria.
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