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Política POLÍTICA BAIANA

CASO MASTER: o silêncio conveniente na política baiana

Caso Master aproxima adversários históricos e levanta dúvidas sobre transparência na disputa eleitoral

25/03/2026 às 09h34 Atualizada em 25/03/2026 às 11h18
Por: Douglas Ferreira
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Jacques Wagner e ACM Neto - Foto: Reprodução
Jacques Wagner e ACM Neto - Foto: Reprodução

O velho ditado popular ensina que "o sujo não pode falar do mal lavado". Na política brasileira, essa sabedoria popular costuma ganhar contornos ainda mais sofisticados. O caso mais recente parece surgir na Bahia, envolvendo dois adversários históricos que, em tese, deveriam travar uma das disputas políticas mais duras do país.

De um lado está o senador Jacques Wagner, líder do governo no Senado e figura central do grupo político que comanda o estado. Do outro aparece o ex-prefeito de Salvador ACM Neto, principal nome da oposição e novamente candidato ao governo baiano. Em circunstâncias normais, seria natural imaginar uma campanha marcada por ataques duros, denúncias e acusações recíprocas. Mas o que se desenha nos bastidores parece seguir caminho oposto.

Segundo reportagem do jornal O Globo e do portal Metrópoles, aliados dos dois grupos políticos teriam costurado um acordo silencioso para retirar da disputa eleitoral um tema potencialmente explosivo. Trata-se do chamado Caso Master, investigação que envolve o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, e que já é descrita por analistas como um dos maiores escândalos financeiros já revelados no país.

O problema para os dois lados é que os nomes de Wagner e de ACM Neto apareceram em diferentes episódios relacionados ao caso. No caso do ex-prefeito de Salvador, um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras apontou transferências que somam cerca de R$ 3,6 milhões feitas por empresas ligadas ao Banco Master e pela gestora Reag. Os pagamentos ocorreram entre março de 2023 e maio de 2024, logo após as eleições de 2022.

ACM Neto afirma que os valores correspondem a serviços de consultoria e declarou estar disposto a prestar esclarecimentos às autoridades. Do ponto de vista jurídico, a explicação pode ser suficiente. Do ponto de vista político, entretanto, a situação se torna mais delicada. Em períodos eleitorais, qualquer relação financeira com instituições envolvidas em investigações tende a produzir desgaste imediato.

O constrangimento também atinge o campo governista. Reportagem do portal Metrópoles revelou que a empresa BK Financeira, ligada à nora de Jaques Wagner, recebeu pelo menos R$ 11 milhões do Banco Master. A empresa tem como sócia Bonnie Toaldo Bonilha, casada com um enteado do senador.

Wagner declarou que não tem conhecimento de qualquer investigação e afirmou que jamais participou de intermediações ou negociações em favor da empresa citada. Ainda assim, o episódio acabou lançando sombra sobre o entorno político do senador.

A trama se torna ainda mais complexa quando se observa a presença de outros personagens do mesmo grupo político. O nome do ministro da Casa Civil, Rui Costa, também aparece no contexto das relações com empresários ligados ao banco. Quando governava a Bahia, Costa conduziu a privatização da Empresa Baiana de Alimentos, a antiga rede Cesta do Povo, que acabou adquirida pelo empresário Augusto Lima, ex-sócio de Daniel Vorcaro.

Entre os ativos envolvidos na operação estava o Credcesta, um cartão de crédito consignado destinado a servidores públicos e aposentados. O instrumento acabou se tornando a peça que tornou a privatização economicamente viável, segundo o próprio ministro.

Diante desse cenário, aliados de Wagner e ACM Neto teriam chegado a uma conclusão pragmática. Explorar politicamente o Caso Master poderia gerar mais danos do que benefícios para qualquer um dos lados. O resultado teria sido um pacto silencioso de não agressão.

Em outras palavras, um acordo tácito para manter o assunto fora da campanha eleitoral.

A política brasileira já testemunhou inúmeros pactos de conveniência. Eles surgem quando adversários percebem que determinadas acusações podem atingir ambos os lados. É uma espécie de armistício informal que não se assina em papel, mas se cumpre na prática.

A lógica é simples. Se um abre o jogo, o outro também abre. Se um acusa, o outro contra-ataca. Para evitar a guerra total, decide-se pelo silêncio mútuo.

Mas é justamente nesse ponto que surge a pergunta mais incômoda. Onde fica o eleitor nesse arranjo?

A democracia pressupõe confronto de ideias, fiscalização pública e transparência. Quando temas potencialmente graves desaparecem do debate eleitoral por conveniência estratégica, cria-se uma espécie de buraco negro no processo democrático.

Nesse vazio, o eleitor vota sem conhecer plenamente as conexões financeiras, políticas e empresariais que cercam os candidatos.

O Caso Master parece ter produzido exatamente esse efeito na Bahia. Em vez de munição eleitoral, transformou-se em um assunto incômodo demais para ser explorado.

Assim, adversários históricos acabam dividindo um curioso ponto de convergência. Nenhum dos dois tem interesse em acender o holofote sobre o tema.

E quando dois rivais decidem simultaneamente ficar em silêncio, a política deixa de parecer uma arena de confronto. Passa a lembrar mais uma mesa de compadres onde todos concordam em não tocar no assunto proibido.

Resta saber se o eleitor baiano aceitará esse silêncio ou se, mais cedo ou mais tarde, exigirá respostas que a campanha preferiu evitar.

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