
Há momentos na política em que um gesto diz mais do que mil discursos. O presidente Lula parece viver exatamente um desses momentos. O gesto foi a decisão de cancelar o visto de um assessor ligado ao governo de Donald Trump. O discurso foi o da “reciprocidade”. O problema é que, quando se observa o cenário completo, a história parece mais complicada do que a versão oficial.
O governo federal enfrenta um conjunto de pressões que lembra o sertanejo quando vê o céu escurecer ao mesmo tempo em que o açude está seco. De um lado, inflação alta, juros nas alturas e sinais preocupantes na economia. De outro, o desgaste político crescente e a surpresa provocada por pesquisas eleitorais que mostram o senador Flávio Bolsonaro ganhando terreno e até empatando ou superando Lula em determinados cenários.
Para um governo que prometeu estabilidade e reconstrução, o momento é de tensão. E governos acuados costumam reagir com gestos bruscos, muitas vezes mais simbólicos do que estratégicos.
Foi nesse contexto que Lula anunciou o cancelamento do visto de um assessor do governo Trump que acompanha assuntos relacionados ao Brasil. A justificativa apresentada foi a aplicação do chamado princípio da reciprocidade. Segundo o presidente, a decisão seria uma resposta ao cancelamento do visto do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, pelos Estados Unidos.
O detalhe é que essa reação chegou com quase oito meses de atraso. Em diplomacia, oito meses equivalem a uma eternidade. No sertão, é como reclamar da seca depois que o milho já morreu no roçado.
Mais curioso ainda é o alvo escolhido. A reciprocidade clássica entre governos costuma ocorrer entre autoridades de níveis equivalentes. Se um ministro é atingido, espera-se reação contra um secretário ou ministro equivalente do outro país. Não foi o que aconteceu. Em vez de atingir alguém de peso no governo americano, o Planalto decidiu mirar um assessor de escalão inferior.
É como se, numa briga de coronéis, alguém resolvesse responder batendo no vaqueiro que passava pela porteira.
A pergunta que começa a circular em Brasília é inevitável. Se a reciprocidade não foi exata e a reação veio tão tarde, qual foi o verdadeiro motivo da decisão?
Uma das hipóteses mais comentadas é que a visita do emissário americano ao ex-presidente Jair Bolsonaro gerou desconforto político no Planalto. Mesmo preso e fora do jogo institucional, Bolsonaro continua sendo um fator de mobilização política. Pior para o governo, seu filho Flávio aparece em pesquisas como um adversário eleitoral competitivo.
Para um governo que já enfrenta desgaste econômico, a simples imagem de um emissário ligado ao universo político de Trump visitando Bolsonaro poderia ser interpretada como um gesto de reconhecimento ou apoio internacional.
Em política, símbolos contam muito. Às vezes contam mais do que fatos.
Outro elemento que alimenta especulações é o momento internacional. Lula enfrenta uma relação fria com o atual governo americano ligado ao campo político de Trump e tem buscado manter protagonismo regional. Recentemente, analistas observaram um certo isolamento do presidente brasileiro em encontros envolvendo líderes das Américas.
Nesse contexto, a decisão de retaliar um assessor americano pode soar como demonstração de firmeza. O problema é que demonstrações de força diplomática funcionam melhor quando são calculadas e simétricas. Quando parecem improvisadas, podem produzir o efeito contrário.
No Nordeste existe um ditado antigo. Quem bate no tambor sem saber o ritmo acaba chamando chuva onde não precisa e espantando água onde faz falta.
No plano internacional, decisões impulsivas podem trazer consequências. Os Estados Unidos continuam sendo um dos principais parceiros comerciais do Brasil, além de exercerem forte influência política e econômica global. Pequenos atritos podem crescer rapidamente se houver interesse político em ampliá-los.
É cedo para saber se haverá retaliação. Pode não haver nenhuma. Diplomacia também sabe engolir sapos quando convém.
Mas uma coisa é certa. O gesto de Lula levanta mais perguntas do que respostas.
Se a reciprocidade foi apenas um argumento tardio, o que realmente motivou a decisão? O receio de dar visibilidade internacional a Bolsonaro? A tentativa de criar um fato político para mudar a pauta interna? Ou apenas uma bravata de momento em um governo pressionado?
Na política brasileira, como na vida do sertanejo, às vezes a gente olha para o céu e não sabe se vem chuva ou tempestade. Mas quando o vento muda de repente, é sinal de que alguma coisa grande está se formando no horizonte.
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