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Nem a isenção do IR salvou: Lula perde força justamente entre quem deveria agradecer

Pesquisa mostra que presidente patina na faixa de renda que foi diretamente beneficiada pela política do governo — e vê Flávio Bolsonaro avançar

10/03/2026 às 10h12 Atualizada em 10/03/2026 às 21h35
Por: Douglas Ferreira
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O incômodo de Lula com avanço de Flávio Bolsonaro é notório - Foto: Reprodução
O incômodo de Lula com avanço de Flávio Bolsonaro é notório - Foto: Reprodução

A política é, muitas vezes, um laboratório cruel da realidade. E os números da pesquisa do Datafolha expõem um paradoxo que incomoda o governo: Lula perde terreno justamente entre aqueles que deveriam ser os principais beneficiários de uma de suas promessas econômicas mais simbólicas, a ampliação da isenção do Imposto de Renda.

A faixa de renda entre dois e cinco salários mínimos, que representa quase dois em cada cinco eleitores, tornou-se um território politicamente instável para o presidente.

Ali, a aprovação do governo permanece praticamente congelada:
42% aprovam, 55% desaprovam.

Mais grave: na simulação de segundo turno, o senador Flávio Bolsonaro aparece à frente de Luiz Inácio Lula da Silva por 48% a 40% nesse segmento.

É um resultado que, embora dentro da margem de erro, inverte completamente o cenário registrado poucos meses antes.

A política que virou obrigação

Durante a campanha de 2022, Lula transformou a ampliação da isenção do Imposto de Renda em uma promessa central. A medida finalmente saiu do papel após aprovação no Congresso, elevando a faixa de isenção para quem ganha até R$ 5 mil mensais.

Na teoria, deveria ser um impulso político poderoso. Na prática, virou apenas cumprimento tardio de promessa.

Como observa o cientista político Antonio Lavareda, fundador do Ipespe, o eleitor não enxerga a medida como uma conquista recente, mas como algo que simplesmente demorou para acontecer.

Na política, timing é tudo. Quando um benefício chega tarde, deixa de ser presente e passa a parecer dívida paga com atraso.

A classe média baixa: o campo de batalha eleitoral

A faixa de renda entre dois e cinco salários mínimos é uma das mais sensíveis do eleitorado brasileiro. Não é a base tradicional do assistencialismo estatal, nem o topo da pirâmide econômica.

É a classe que trabalha, paga imposto, sente inflação e percebe imediatamente qualquer deterioração econômica. É também o grupo mais propenso a mudanças políticas.

Em termos sociológicos, trata-se de um eleitorado volátil. Se o mais pobre vota muitas vezes por proteção social e o mais rico por estabilidade econômica, essa faixa vota por percepção de progresso.

E é exatamente aí que o governo enfrenta dificuldades.

O problema da narrativa econômica

O governo insiste em afirmar que o Brasil cresce. Mas crescimento macroeconômico não significa necessariamente sensação de prosperidade no cotidiano.

Se o país cresce e o cidadão não sente melhora no bolso, o discurso oficial soa vazio.

É o que Lavareda sintetiza de forma direta:
o governo não conseguiu emplacar uma narrativa de sucesso econômico.

Não basta anunciar números positivos de PIB.

O eleitor quer perceber três coisas simples:

  • renda aumentando

  • emprego estável

  • custo de vida controlado

Se isso não acontece, qualquer política pública perde potência eleitoral.

Flávio Bolsonaro avança

A pesquisa também revela outro fenômeno político relevante: a consolidação de Flávio Bolsonaro como herdeiro eleitoral do campo bolsonarista.

Filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, ele aparece crescendo em praticamente todos os segmentos analisados:

  • mais ricos

  • homens

  • evangélicos

  • classe média baixa

Entre os homens, por exemplo, abre oito pontos de vantagem sobre Lula. É uma mudança significativa em relação ao cenário de 2022, quando Lula conseguia equilíbrio maior nesse eleitorado.

A calcificação do eleitorado

Outro dado revelador da pesquisa é o nível de fidelidade política. Segundo o Datafolha, nove em cada dez eleitores afirmam não se arrepender do voto dado em 2022.

Isso significa que o eleitorado brasileiro está cada vez mais polarizado e cristalizado. Trocar votos entre campos políticos se tornou extremamente difícil.

Em termos práticos, campanhas eleitorais deixaram de ser grandes processos de conversão e passaram a ser disputas milimétricas por pequenos segmentos decisivos.

O dilema do governo

O governo enfrenta agora uma equação complicada. Se a isenção do Imposto de Renda não gerou impacto político relevante, outras medidas terão que cumprir esse papel.

Dentro da própria esquerda, cresce a expectativa de novas políticas sociais, como:

  • programas de subsídio energético

  • ampliação de benefícios sociais

  • propostas trabalhistas, como o fim da escala 6x1

Mas há um limite evidente: o espaço fiscal do país. Qualquer expansão de gastos públicos esbarra no debate sobre responsabilidade fiscal e equilíbrio das contas.

A lição política da pesquisa

Os números do Datafolha revelam uma verdade incômoda da política moderna: benefício econômico não se converte automaticamente em voto.

O eleitor não vota apenas pelo que recebe. Vota pelo que percebe, interpreta e acredita. Se a política pública não se transforma em narrativa convincente, seu efeito eleitoral desaparece.

É como plantar uma árvore e esperar colher frutos sem nunca regá-la.

Um cenário de guerra apertada

Tudo indica que o Brasil caminha novamente para uma eleição polarizada.

Com eleitorados cada vez mais rígidos e poucas margens de conversão, a disputa tende a ser decidida nos detalhes, nas percepções e nos humores da economia cotidiana.

A pesquisa não define vencedores. Mas revela algo importante: nem mesmo políticas tributárias que aliviam o bolso garantem gratidão eleitoral.

Na política brasileira contemporânea, o voto não é agradecimento, é julgamento.

E o julgamento, como mostram os números, segue em aberto.

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