
A política é, muitas vezes, um laboratório cruel da realidade. E os números da pesquisa do Datafolha expõem um paradoxo que incomoda o governo: Lula perde terreno justamente entre aqueles que deveriam ser os principais beneficiários de uma de suas promessas econômicas mais simbólicas, a ampliação da isenção do Imposto de Renda.
A faixa de renda entre dois e cinco salários mínimos, que representa quase dois em cada cinco eleitores, tornou-se um território politicamente instável para o presidente.
Ali, a aprovação do governo permanece praticamente congelada:
42% aprovam, 55% desaprovam.
Mais grave: na simulação de segundo turno, o senador Flávio Bolsonaro aparece à frente de Luiz Inácio Lula da Silva por 48% a 40% nesse segmento.
É um resultado que, embora dentro da margem de erro, inverte completamente o cenário registrado poucos meses antes.
Durante a campanha de 2022, Lula transformou a ampliação da isenção do Imposto de Renda em uma promessa central. A medida finalmente saiu do papel após aprovação no Congresso, elevando a faixa de isenção para quem ganha até R$ 5 mil mensais.
Na teoria, deveria ser um impulso político poderoso. Na prática, virou apenas cumprimento tardio de promessa.
Como observa o cientista político Antonio Lavareda, fundador do Ipespe, o eleitor não enxerga a medida como uma conquista recente, mas como algo que simplesmente demorou para acontecer.
Na política, timing é tudo. Quando um benefício chega tarde, deixa de ser presente e passa a parecer dívida paga com atraso.
A faixa de renda entre dois e cinco salários mínimos é uma das mais sensíveis do eleitorado brasileiro. Não é a base tradicional do assistencialismo estatal, nem o topo da pirâmide econômica.
É a classe que trabalha, paga imposto, sente inflação e percebe imediatamente qualquer deterioração econômica. É também o grupo mais propenso a mudanças políticas.
Em termos sociológicos, trata-se de um eleitorado volátil. Se o mais pobre vota muitas vezes por proteção social e o mais rico por estabilidade econômica, essa faixa vota por percepção de progresso.
E é exatamente aí que o governo enfrenta dificuldades.
O governo insiste em afirmar que o Brasil cresce. Mas crescimento macroeconômico não significa necessariamente sensação de prosperidade no cotidiano.
Se o país cresce e o cidadão não sente melhora no bolso, o discurso oficial soa vazio.
É o que Lavareda sintetiza de forma direta:
o governo não conseguiu emplacar uma narrativa de sucesso econômico.
Não basta anunciar números positivos de PIB.
O eleitor quer perceber três coisas simples:
renda aumentando
emprego estável
custo de vida controlado
Se isso não acontece, qualquer política pública perde potência eleitoral.
A pesquisa também revela outro fenômeno político relevante: a consolidação de Flávio Bolsonaro como herdeiro eleitoral do campo bolsonarista.
Filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, ele aparece crescendo em praticamente todos os segmentos analisados:
mais ricos
homens
evangélicos
classe média baixa
Entre os homens, por exemplo, abre oito pontos de vantagem sobre Lula. É uma mudança significativa em relação ao cenário de 2022, quando Lula conseguia equilíbrio maior nesse eleitorado.
Outro dado revelador da pesquisa é o nível de fidelidade política. Segundo o Datafolha, nove em cada dez eleitores afirmam não se arrepender do voto dado em 2022.
Isso significa que o eleitorado brasileiro está cada vez mais polarizado e cristalizado. Trocar votos entre campos políticos se tornou extremamente difícil.
Em termos práticos, campanhas eleitorais deixaram de ser grandes processos de conversão e passaram a ser disputas milimétricas por pequenos segmentos decisivos.
O governo enfrenta agora uma equação complicada. Se a isenção do Imposto de Renda não gerou impacto político relevante, outras medidas terão que cumprir esse papel.
Dentro da própria esquerda, cresce a expectativa de novas políticas sociais, como:
programas de subsídio energético
ampliação de benefícios sociais
propostas trabalhistas, como o fim da escala 6x1
Mas há um limite evidente: o espaço fiscal do país. Qualquer expansão de gastos públicos esbarra no debate sobre responsabilidade fiscal e equilíbrio das contas.
Os números do Datafolha revelam uma verdade incômoda da política moderna: benefício econômico não se converte automaticamente em voto.
O eleitor não vota apenas pelo que recebe. Vota pelo que percebe, interpreta e acredita. Se a política pública não se transforma em narrativa convincente, seu efeito eleitoral desaparece.
É como plantar uma árvore e esperar colher frutos sem nunca regá-la.
Tudo indica que o Brasil caminha novamente para uma eleição polarizada.
Com eleitorados cada vez mais rígidos e poucas margens de conversão, a disputa tende a ser decidida nos detalhes, nas percepções e nos humores da economia cotidiana.
A pesquisa não define vencedores. Mas revela algo importante: nem mesmo políticas tributárias que aliviam o bolso garantem gratidão eleitoral.
Na política brasileira contemporânea, o voto não é agradecimento, é julgamento.
E o julgamento, como mostram os números, segue em aberto.
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