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Política DITO POPULAR

MDB adota postura de “quem pariu Mateus que balance” e se distancia do impasse político do PT

Ditado popular atravessa séculos para explicar um velho drama da política brasileira: quem cria o problema precisa assumir o peso de resolvê-lo

09/03/2026 às 14h02 Atualizada em 09/03/2026 às 21h27
Por: Douglas Ferreira
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Rafael Fonteles em conversa de pé de orelha com o senador Marcelo Castro, do MDB - Foto: Reprodução
Rafael Fonteles em conversa de pé de orelha com o senador Marcelo Castro, do MDB - Foto: Reprodução

Quando a política descobre que toda escolha tem consequência

 

A sabedoria popular costuma resolver em poucas palavras aquilo que tratados de ciência política levam páginas para explicar. Um dos exemplos mais diretos disso é o famoso ditado “quem pariu Mateus que balance”.

A frase é antiga, de origem portuguesa, mas ganhou no Brasil uma força quase pedagógica. No sentido mais simples, o ditado lembra algo que qualquer avó do interior já ensinava sem precisar de aula de filosofia política.

Quem cria o problema precisa assumir as consequências.

Sem transferência de culpa. Sem terceirização de responsabilidade.

Em outras palavras, se alguém colocou o filho no mundo, que agora cuide de embalar o berço.

Um ditado que atravessou o tempo

Historiadores da cultura popular apontam que a expressão surgiu em Portugal entre os séculos XVII e XVIII, em um contexto doméstico muito simples.

Mateus era apenas um nome comum, usado como exemplo em histórias cotidianas. O verbo “balançar”, por sua vez, refere-se ao ato de embalar o bebê no berço para fazê-lo dormir.

A metáfora é cristalina.

Se alguém decidiu trazer a criança ao mundo, cabe a essa pessoa também lidar com as noites mal dormidas.

O ditado acabou atravessando o Atlântico e encontrou no Brasil um terreno fértil para prosperar. Em um país onde a política muitas vezes tenta dividir responsabilidades como quem divide conta de bar, a frase virou um lembrete incômodo.

Cada escolha tem seu preço.

A política e o berço que balança

Se há um lugar onde esse ditado se encaixa como luva é na política.

Governos são criados, alianças são costuradas, lideranças são construídas. Mas, como em qualquer família grande, chega uma hora em que o bebê começa a chorar.

E alguém precisa balançar o berço.

No Piauí, o velho provérbio voltou a circular nos bastidores políticos por causa do impasse que envolve duas das principais lideranças do Partido dos Trabalhadores no estado.

De um lado está o ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Wellington Dias. Do outro, o atual governador do Piauí, Rafael Fonteles.

Durante anos, a relação entre os dois foi descrita como a clássica parceria entre mentor e sucessor.

Criador e criatura.

Mas a política tem dessas coisas. O tempo passa, os projetos mudam e, de repente, o berço começa a ranger.

O MDB e a metáfora do berço

No meio desse cenário, o Movimento Democrático Brasileiro decidiu adotar uma posição curiosamente simples.

O partido anunciou que não pretende atuar como mediador no impasse entre as duas lideranças petistas.

Traduzindo para o português claro da sabedoria popular, a mensagem foi mais ou menos esta.

Se o problema nasceu dentro do PT, que o próprio PT resolva.

Ou, em versão ainda mais direta.

Quem pariu Mateus que balance.

Dirigentes do MDB afirmam que, neste momento, a prioridade da sigla é organizar sua própria estratégia eleitoral, especialmente a ampliação da bancada na Assembleia Legislativa do Piauí.

A legenda também lembra que já perdeu o espaço de indicação da vice-governadoria e, portanto, considera que a definição da chapa majoritária cabe exclusivamente ao partido que comanda o governo.

O silêncio que fala

Oficialmente, o PT tenta minimizar o problema.

Dirigentes da legenda afirmam que divergências são naturais na política e negam a existência de uma crise aberta entre o governador e o ministro.

Também negam que figuras influentes do partido, como José Dirceu ou José Guimarães, tenham sido acionadas para intermediar o impasse.

Nos bastidores, porém, o clima é descrito de outra forma.

Há quem diga que o calundu político já é visível a quilômetros de distância.

Na política, como no futebol de várzea, quando dois jogadores começam a disputar a mesma bola sem combinar antes, o risco de trombada é grande.

E quando a trombada acontece dentro do mesmo time, o prejuízo costuma ser coletivo.

O dilema da criatura

Para analistas políticos, o episódio expõe um dilema clássico do poder.

Todo líder político gosta de formar sucessores.

Mas nem sempre está preparado para quando o sucessor ganha autonomia.

A relação entre padrinho e afilhado político costuma ser harmoniosa enquanto ambos caminham na mesma direção. O problema começa quando as ambições passam a disputar o mesmo espaço.

É como em família grande.

Enquanto todos cabem na mesma casa, a convivência funciona. Quando chega a hora de dividir os quartos, começam as discussões.

A lição que a política insiste em ignorar

O ditado popular continua atual justamente porque traduz uma verdade que a política insiste em esquecer.

Toda escolha cria consequências.

Toda aliança gera expectativas.

Todo projeto de poder cobra seu preço.

No final das contas, o velho Mateus continua chorando no berço da política.

E alguém, mais cedo ou mais tarde, vai ter que balançar.

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