
A sabedoria popular costuma resolver em poucas palavras aquilo que tratados de ciência política levam páginas para explicar. Um dos exemplos mais diretos disso é o famoso ditado “quem pariu Mateus que balance”.
A frase é antiga, de origem portuguesa, mas ganhou no Brasil uma força quase pedagógica. No sentido mais simples, o ditado lembra algo que qualquer avó do interior já ensinava sem precisar de aula de filosofia política.
Quem cria o problema precisa assumir as consequências.
Sem transferência de culpa. Sem terceirização de responsabilidade.
Em outras palavras, se alguém colocou o filho no mundo, que agora cuide de embalar o berço.
Historiadores da cultura popular apontam que a expressão surgiu em Portugal entre os séculos XVII e XVIII, em um contexto doméstico muito simples.
Mateus era apenas um nome comum, usado como exemplo em histórias cotidianas. O verbo “balançar”, por sua vez, refere-se ao ato de embalar o bebê no berço para fazê-lo dormir.
A metáfora é cristalina.
Se alguém decidiu trazer a criança ao mundo, cabe a essa pessoa também lidar com as noites mal dormidas.
O ditado acabou atravessando o Atlântico e encontrou no Brasil um terreno fértil para prosperar. Em um país onde a política muitas vezes tenta dividir responsabilidades como quem divide conta de bar, a frase virou um lembrete incômodo.
Cada escolha tem seu preço.
Se há um lugar onde esse ditado se encaixa como luva é na política.
Governos são criados, alianças são costuradas, lideranças são construídas. Mas, como em qualquer família grande, chega uma hora em que o bebê começa a chorar.
E alguém precisa balançar o berço.
No Piauí, o velho provérbio voltou a circular nos bastidores políticos por causa do impasse que envolve duas das principais lideranças do Partido dos Trabalhadores no estado.
De um lado está o ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Wellington Dias. Do outro, o atual governador do Piauí, Rafael Fonteles.
Durante anos, a relação entre os dois foi descrita como a clássica parceria entre mentor e sucessor.
Criador e criatura.
Mas a política tem dessas coisas. O tempo passa, os projetos mudam e, de repente, o berço começa a ranger.
No meio desse cenário, o Movimento Democrático Brasileiro decidiu adotar uma posição curiosamente simples.
O partido anunciou que não pretende atuar como mediador no impasse entre as duas lideranças petistas.
Traduzindo para o português claro da sabedoria popular, a mensagem foi mais ou menos esta.
Se o problema nasceu dentro do PT, que o próprio PT resolva.
Ou, em versão ainda mais direta.
Quem pariu Mateus que balance.
Dirigentes do MDB afirmam que, neste momento, a prioridade da sigla é organizar sua própria estratégia eleitoral, especialmente a ampliação da bancada na Assembleia Legislativa do Piauí.
A legenda também lembra que já perdeu o espaço de indicação da vice-governadoria e, portanto, considera que a definição da chapa majoritária cabe exclusivamente ao partido que comanda o governo.
Oficialmente, o PT tenta minimizar o problema.
Dirigentes da legenda afirmam que divergências são naturais na política e negam a existência de uma crise aberta entre o governador e o ministro.
Também negam que figuras influentes do partido, como José Dirceu ou José Guimarães, tenham sido acionadas para intermediar o impasse.
Nos bastidores, porém, o clima é descrito de outra forma.
Há quem diga que o calundu político já é visível a quilômetros de distância.
Na política, como no futebol de várzea, quando dois jogadores começam a disputar a mesma bola sem combinar antes, o risco de trombada é grande.
E quando a trombada acontece dentro do mesmo time, o prejuízo costuma ser coletivo.
Para analistas políticos, o episódio expõe um dilema clássico do poder.
Todo líder político gosta de formar sucessores.
Mas nem sempre está preparado para quando o sucessor ganha autonomia.
A relação entre padrinho e afilhado político costuma ser harmoniosa enquanto ambos caminham na mesma direção. O problema começa quando as ambições passam a disputar o mesmo espaço.
É como em família grande.
Enquanto todos cabem na mesma casa, a convivência funciona. Quando chega a hora de dividir os quartos, começam as discussões.
O ditado popular continua atual justamente porque traduz uma verdade que a política insiste em esquecer.
Toda escolha cria consequências.
Toda aliança gera expectativas.
Todo projeto de poder cobra seu preço.
No final das contas, o velho Mateus continua chorando no berço da política.
E alguém, mais cedo ou mais tarde, vai ter que balançar.
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