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Política DIPLOMACIA CRÍTICA

Entre democracias e ditaduras: a política externa que isola o Brasil

Postura do governo brasileiro em conflitos internacionais levanta questionamentos sobre alinhamento ideológico, perda de relevância diplomática e distância dos valores democráticos

09/03/2026 às 10h31
Por: Douglas Ferreira
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Lula e Mauro Vieira - Foto: Reprodução
Lula e Mauro Vieira - Foto: Reprodução

A política externa brasileira sempre foi motivo de orgulho nacional. Durante décadas, o país cultivou uma diplomacia profissional, reconhecida pela capacidade de dialogar com diferentes blocos ideológicos sem perder de vista princípios básicos como a defesa da paz, do direito internacional e da democracia.

Nos últimos anos, porém, essa tradição parece ter sido substituída por uma política externa marcada por escolhas controversas e por um alinhamento que muitos analistas consideram, no mínimo, estranho.

O problema não está apenas na política interna. No cenário internacional, o Brasil também vem adotando posições que levantam dúvidas sobre a coerência de sua atuação diplomática.

Um padrão que se repete

Em diferentes conflitos globais recentes, o posicionamento brasileiro tem seguido um padrão que chama a atenção.

Na guerra entre Rússia e Ucrânia, o Brasil evitou condenações diretas ao Kremlin e adotou posições vistas por críticos como complacentes com a invasão russa. Em votações internacionais e declarações diplomáticas, a postura brasileira frequentemente privilegiou a neutralidade ou a abstenção em vez de uma condenação clara da agressão.

No conflito entre Israel e o grupo Hamas na Faixa de Gaza, o discurso oficial brasileiro concentrou críticas na reação israelense, enquanto evitou condenações contundentes ao grupo responsável pelo ataque terrorista de outubro de 2023.

Já no caso do regime de Nicolás Maduro na Venezuela, acusado por autoridades americanas de narcoterrorismo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem adotado uma postura de defesa política e diplomática do governo venezuelano.

A repetição desses episódios tem alimentado uma pergunta incômoda.

Por que o Brasil parece inclinado a se posicionar ao lado de regimes autoritários quando confrontado com democracias liberais?

O caso mais recente

A crise envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã tornou esse questionamento ainda mais evidente.

Nos últimos dias, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, informou ter conversado com representantes de diversos países do Oriente Médio sobre o conflito. Entre eles estavam Arábia Saudita, Catar, Bahrein, Jordânia, Kuwait e Turquia.

No entanto, o Brasil não estabeleceu diálogo direto com os três principais atores da crise: Estados Unidos, Israel e o próprio Irã.

A ausência de contato com os protagonistas do conflito foi interpretada por analistas como sinal de perda de relevância diplomática.

Na prática, o Brasil falou com vários países afetados pela guerra, mas não conversou com quem de fato decide os rumos do conflito.

Uma diplomacia em busca de rumo

Tradicionalmente, a diplomacia brasileira se baseava em dois pilares.

Equilíbrio e pragmatismo.

O país buscava dialogar com todos os lados sem romper com os valores democráticos que estruturam a própria Constituição brasileira.

Hoje, porém, críticos apontam que esse equilíbrio foi substituído por uma política externa marcada por afinidades ideológicas.

A aproximação com regimes como Irã, Venezuela e Rússia é frequentemente justificada pelo discurso de construção de um mundo multipolar e pela crítica ao chamado “imperialismo ocidental”.

Esse argumento, no entanto, enfrenta uma contradição evidente.

Em nome do combate ao imperialismo, o Brasil acaba relativizando regimes acusados de repressão política, perseguição a opositores e violações sistemáticas de direitos humanos.

O custo diplomático

Essa postura cobra um preço.

A influência internacional do Brasil, que já foi significativa em fóruns multilaterais, hoje parece reduzida.

O país deixou de ser visto como mediador confiável e passou a ser percebido por muitos parceiros ocidentais como um ator ideologicamente alinhado a governos autoritários.

Além disso, a deterioração das relações com Israel e o distanciamento dos Estados Unidos enfraquecem a capacidade brasileira de atuar como ponte entre diferentes blocos geopolíticos.

A pergunta que permanece

A diplomacia de um país não deve servir a projetos ideológicos, mas aos interesses permanentes da nação.

Nesse contexto, uma questão continua sem resposta clara.

Por que um país democrático como o Brasil parece tão confortável em se aproximar de regimes autoritários?

E por que, diante de conflitos globais cada vez mais perigosos, o governo brasileiro evita se posicionar claramente ao lado das democracias?

Responder a essas perguntas é essencial.

Porque a política externa não é apenas uma disputa entre governos.

Ela define o lugar de um país no mundo.

E o Brasil precisa decidir se deseja ser uma voz respeitada na defesa da liberdade ou apenas mais um ator perdido no jogo das alianças ideológicas.

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